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Para pensar nesse dia 28

 

Por un día de la ira Gay

Javier Sáez / La Haine

Tendríamos que mostrar nuestra ira, acabar con esta paz cobarde e inútil. Todo ha quedado en un baile de gratitud domesticado.

Se avecina otra Gay Pride, otra marcha del Orgullo Gay. Los borreguitos de nuevo por el sendero que autoriza el poder, de Alcalá a Sol. Luego, vuelta al silencio durante otros 12 meses. Desfile de chulazos, modelitos, banderas arco iris, carrozas de la peseta rosa y drags a ritmo de Mónica Naranjo o Alaska. Miles de personas, se esperan 500.000, 1 millón, 3 millones. Luego quedarán las serpentinas en las calles, las lentejuelas caídas, las plumas que se han liberado durante un par de horas. Bien, y ¿qué hemos conseguido después de 30 años de Gay Pride? Casi nada. Cero con algo.

Sólo el derecho al matrimonio heterocentrado. Ni el fin de la homofobia, ni políticas serias contra el sida, ni disculpas de la iglesia, ni respeto en los medios de comunicación. Resulta patético que esos millones de gays y lesbianas que salimos a la calle el 28 J lo hagamos riendo, bailando y cantando, pacíficamente, desfilando por la calle ordenadamente. ¿A qué viene tanta alegría? Después de tantas tomaduras de pelo, de tantas agresiones homófobas, de tanta política sanitaria genocida, de tanto represor en el armario, de un PP y una iglesia católica neonazi y homófoba, lo que falta en esta manifestación es la RABIA.

El 28 J deberíamos tomar las demás calles, los colegios, las iglesias, los bares, los cines, las emisoras de radio, desfilar por los pueblos. Deberíamos asaltar el ministerio de sanidad, apedrear el ministerio de educación, atacar a la policía, okupar las televisiones.

Tendríamos que mostrar nuestra ira, acabar con esta paz cobarde e inútil. Todo ha quedado en un baile de gratitud domesticado: ahora tenemos una zona rosa de bares en cada gran ciudad, unas cuantas revistas rosas que hablan de ese mercado rosa, una minoría de gays y lesbianas que pueden casarse y disfrutar del placer rosa, mientras el imperio heterrorista avanza día a día. ¿Qué hay de l@s transexuales a l@s que se siguen negando todos los derechos, de los comentarios homófobos en la televisión y en la prensa, de los artículos científicos donde se investiga el origen de nuestra rareza, de la represión en los cuarteles y en las cárceles, de los gays, lesbianas y trans que viven en los pueblos bajo el terror, de los bebés intersexuales mutilados en los hospitales, de los que mueren de sida en todo el mundo por la avaricia de la industria farmacéutica y la negligencia de las autoridades, de los niños mariquitas atacados por los compañeros, de los policías que nos persiguen e increpan en los váteres, de las lesbianas que han reducido al silencio?

¿Tod@s es@s también desfilarán alegres y contentos el 28 J, tienen tanto que celebrar? El espíritu de rebelión y cabreo que estaba en el origen de los incidentes del 28 J de Stonewall se ha perdido por completo, pero no han desaparecido las causas que lo motivaron. Vivimos en una amnesia estéril, unos atrapados en la inercia del capital y sus destellos, otros bajo el miedo y el silencio que se sigue promoviendo desde todas partes.

El 28 J ha perdido su faceta política y de lucha, y por tanto, ha perdido todo su sentido. Se ha convertido en una imitación de la Pride de EEUU, de Francia o de Australia, es decir, de aquellos lugares donde el capitalismo ha asimilado a los gays y lesbianas convirtiéndolos en meros consumidores, cuando no en grupos de presión utilizados por los partidos políticos. Si ese es nuestro destino, que San Genet nos coja confesados.

* Javier Sáez es sociólogo, miembro de Colectiu Gai de Barcelona y autor de "Teoría queer y psicoanálisis" ( Ed. Síntesis, Madrid, 2004) y de "Teoría queer: políticas bolleras, maricas, trans y mestizas" (Ed. Egales, Madrid, 2005) entre otros.



 Escrito por Leandro às 20h15
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opus dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém

Pessoas.

Depois de constatar que os jornais que publicaram o texto homofóbico de Di Franco não publicaram o meu texto, resolvi escrever um texto (agora sem meias palavras) para o Observatório da Imprensa, que publicou com destaque no site.  Vejam em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=543IMQ001

Se nós não reagirmos, a Opus Dei reage.

Um abraço, Leandro



 Escrito por Leandro às 12h41
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O cinema queer de Matheus

Nesse final de semana, assisti o novo filme do Matheus Nachtergaele, A festa da menina morta. Eu estava muito curioso para ver e não me arrependi. Mas creio que muitas pessoas não vão gostar do filme e vários não deverão concordar sobre o que vou escrever aqui.

O filme trata sobre um homem, que é chamado por Santinho (interpretado por Daniel de Oliveira), e se passa em uma comunidade ribeirinha do rio Amazonas. O tal Santinho é considerado santo na comunidade porque teria encontrado a tal menina morta e com ela se comunicaria. Ocorre que o tal santinho é bem afetado, veste algo que lembra um vestidinho, é afeminado e tem relações sexuais (e dorme na mesma cama) com o pai (vivido por Jackson Antunes). A mãe do santinho teria cometido suicídio. Não vou contar mais senão perde a graça.

O que gostaria de tratar é: esse é um filme sobre o quê? Sobre a relação incestuosa? É um filme com temática gay (nem falo em filme gay, pois considero essa expressão, para dizer o mínimo, muito problemática)?

Eu ainda estou pensando nessas questões. Logo no início do filme, já se percebe que o olho do diretor explora, inclusive sensualmente, o corpo de um dos atores (lindo, por sinal). Trata-se do personagem Tadeu. Um gay, sabendo quem é o diretor, logo fará essa associação. Por isso, eu logo pensei que o filme seria focado na questão/temática gay. E, para minha surpresa, quase fui esquecendo disso no decorrer do filme, e fui sendo envolvido por outras tantas questões muito interessantes. É aí que o filme cresce e deixa tantas coisas no ar. Algumas: Santinho é a nova mulher do pai? A mãe morreu mesmo? O pai ama Santinho ou ama a mãe em Santinho? Santinho é um farsante ou é mesmo médium? Santinho ama Tadeu? Tadeu ama Santinho? Quem é lúcido e quem é louco nesse filme?

Ora, todas essas últimas questões, junto com as primeiras, fazem o filme valer a pena. Fazem o filme ser considerado por mim como um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos. A atuação de Daniel Oliveira é impressionante, mas eu adoraria ver Matheus no lugar dele. Sim, agora vou dar rápidas respostas para minhas perguntas:

O filme, antes de ser sobre incesto ou com temática gay, é sobre a tragédia de nossas vidas, sobre o que fazemos para conseguir viver nesse mundo, sobre como as contingências nos governam, sobre como subvertemos e nos adaptamos às regras, sobre como criamos mitos para explicar o inexplicável. É um filme em que a temática gay é importante, mas ela vai perdendo terreno na medida em que a obra se desenvolve.

Eu acho que Santinho é a nova mulher do pai, a Lei não opera sobre ele, o complexo de Édipo não se realiza sobre ele. Assim, o pai ama a mãe em Santinho, mas também ama e deseja Santinho.  É a subversão das categorias e da Lei. Santinho não é nem um pouco santo, nem mesmo médium. Santinho ama o pai e ama Tadeu, que também o ama, e muito. Enfim, ninguém é “normal” nesse filme. E por isso que ele é muito bom. Eu colocaria ele numa lista de cinema queer.



 Escrito por Leandro às 22h41
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Meu texto, enviado aos jornais

De quem é a intolerância?

 

Leandro Colling - jornalista, professor adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor (IHAC) Milton Santos, da UFBA, onde coordena o grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS)

 

O artigo publicado em vários jornais, a exemplo dos jornais  A Tarde, Globo e Estado de S.Paulo, no último dia 1º de junho (leia abaixo), com o título Totalitarismo e intolerância, do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco, é recheado de contradições e fruto de um pensamento conservador, disciplinador (no pior sentido), totalitário e intolerante. O autor, para tentar persuadir o leitor, tenta ligar duas questões distintas para reforçar o preconceito contra a comunidade LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) e, de uma forma mais geral, contra a discussão da sexualidade nas escolas. O texto poderia ser desconstruído de várias maneiras, mas, em função do espaço, vou eleger apenas algumas.

Di Franco tenta sustentar o argumento de que estamos vivendo “uma onda de intolerância” porque “discriminados assumem a bandeira da discriminação”. Isso porque o governo federal deseja que a temática LGBTT seja incluída nos livros didáticos e que os professores sejam capacitados para combater a homofobia nas escolas. O que é um avanço no combate à intolerância, capaz até de diminuir um alto índice de suicídios entre os jovens, motivados pela homofobia no ambiente escolar, Di Franco chama de “espasmo de totalitarismo”, pois o governo estaria fazendo um “proselitismo de uma opção de vida” e que a escola, via materiais didáticos, não deveria “formatar a cabeça dos brasileiros”.

Ora, em primeiro lugar, quem deseja formatar (ou manter formatada) a cabeça das pessoas é Di Franco. Pregar o respeito à diversidade sexual não é um “proselitismo de opção de vida”, mas a defesa do respeito à diferença. E ser LGBTT não é uma opção, pelo menos não no sentido de que é plenamente possível o indivíduo optar por determinada orientação sexual ao seu bel prazer.

Todos nós, inclusive os heterossexuais, possuímos uma orientação sexual (que pode ser também uma que transite entre as várias possíveis), adquirida ao longo dos nossos processos de formação de nossas identidades, o que é realizado, em boa medida, de forma inconsciente.

A sociedade impõe, exige, apenas uma orientação, ou seja, quer que todos sigam a heterossexualidade, por isso ela mesma também não é uma opção, pois é compulsória. No entanto, centenas de pessoas acabam por não se adequar nessa heteronormatividade e sofrem sérias conseqüências. E é por causa delas que o governo, muito tardiamente, começa a criar políticas públicas para combater o preconceito.

Di Franco diz que o governo deve combater os “abusos da homofobia”, mas “não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população”. Eu gostaria de saber o que ele entende por abusos de homofobia. Pode discriminar, desde que não mate? Esse seria o único abuso a ser combatido? O modelo de família que temos no Brasil e no mundo também é uma imposição, construída por um regime de poder que Di Franco representa muito bem. Regime esse que não consegue conviver com o diferente.

Ironicamente, esse regime se revela também como uma construção cultural exatamente nesses momentos, pois o texto de Di Franco mostra como a heternormatividade precisa ser diariamente reforçada para continuar sendo a norma preponderante, que tenta, a qualquer custo, aniquilar o diferente através da coerção e da manutenção da hierarquia de uma norma sobre os outros.

Por fim, ainda é preciso tratar sobre o outro exemplo do texto de Di Franco, a polêmica questão do livro, adotado pelo governo de São Paulo, que conteria palavrões. Não conheço o livro, que realmente pode ser inadequado para a faixa etária proposta. No entanto, até quando a escola continuará sem discutir profundamente a sexualidade? Por mais que o poder conservador e disciplinador tente o contrário, a sexualidade é tema recorrente nas conversas dos alunos e alunas. Se o professor não fala, os estudantes falam, e muito, e inclusive praticam, cada vez mais cedo e com mais intensidade. Tudo isso sem a devida orientação, tanto para heterossexuais ou não. E assim vemos aumentar o índice de doenças sexualmente transmissíveis entre os adolescentes. Ou Di Franco seria um defensor do sexo somente depois do casamento e apenas com fins procriativos? Não duvidaria nem um pouco dessas possibilidades, dadas as suas filiações ideológicas e religiosas conhecidas (ser membro da Opus Dei, por exemplo), novamente evidenciadas em um dos seus textos.

Totalitarismo e intolerância

Carlos Alberto Di Franco

Dois episódios recentes, em Brasília e São Paulo, desnudam a visão totalitária e a intolerância ideológica que dominam estratégias de longo alcance na formação das novas gerações.

Comecemos por Brasília. O governo quer que sejam incluídos nos livros didáticos a temática de famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e transexuais.

Ainda na área da educação, recomenda cursos de capacitação para evitar a homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em relação ao tema. Essas são algumas das medidas que integram o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios do governo Lula. “É um marco na busca da garantia dos direitos e cidadania”, afirmou o secretários de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, durante o lançamento do plano.

Vamos, caro leitor, a São Paulo. A Secretaria Estadual da Educação distribuiu em escolas um livro com conteúdo sexual e palavrões, para ser usado como material de apoio por alunos da terceira série do ensino fundamental (faixa etária de 9 anos). O livro (“Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol”) é recheado com expressões como “chupa a rola” e “chupava ela todinha”. São 11 histórias em quadrinhos, feitas por diferentes artistas, que abordam temas relacionados a futebol – algumas usam também a conotação sexual.

O governo de São Paulo afirmou que houve “falha” na escolha, pois o material é “inadequado para alunos desta idade”. Ótimo. Reconhecer o erro é importante.

Mas, aparentemente, o governo entende que o conteúdo seria adequado para alunos de outra faixa etária.

Lamentável! É assim que se pretende melhorar a qualidade de ensino? São Paulo que foi capaz de produzir uma USP assiste hoje à demissão do dever de educar. A pedagogia do palavrão e a metodologia da obscenidade estão ocupando o lugar da educação de qualidade.

Espero, sinceramente, que o episódio seja pontual e que o governador José Serra, homem de sólida formação acadêmica, e seu secretário da Educação, o ex-ministro Paulo Renato, tomem providências definitivas.

Na verdade, amigo leitor, uma onda de intolerância avança sobre a sociedade.

Discriminados assumem a bandeira da discriminação. O tema da sexualidade passou a gerar novos dogmas e novos tabus.

E os governos, num espasmo de totalitarismo, queremimpor à sociedadeum modo único de pensar, de ver e de sentir.

Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra, totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos brasileiros.

Tal estratégia tem nome: totalitarismo.

O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população.

Se tivessem aprovado o Conselho Federal de Jornalismo, uma frustrada tentativa de garrotear a liberdade de imprensa e de expressão, eu, certamente, não publicaria este artigo. Não conseguiram.

Felizmente. Escrevo com absoluta liberdade. E outros, que de mim discordem, podem defender seus pontos de vista com a mesma liberdade.

A intolerância atual é uma nova “ideologia”, ou seja, uma cosmovisão – um conjunto global de ideias fechado em si mesmo –, que pretende ser a “única verdade”, racional, a única digna de ser levada em consideração na cultura, na política, na legislação, na educação, etc. Tal como as políticas nascidas das ideologias totalitárias, a atual intolerância execra – sem dar audiência ao adversário nem manter respeito por ele – os pensamentos que divergem dos seus “dogmas”, e não hesita em mobilizar a “inquisição” de certos setores, para achincalhar – sem o menor respeito pelo diálogo – as ideias ou posições que se opõem ao seu dogmatismo.

Aborrece-me a intolerância dos “tolerantes”.

Incomoda-me o dogmatismo das falanges autoritárias. Respeito a divergência e convivo com o contraditório.

Sem problema. Mas não duvido que é na família, na família tradicional, mais do que em qualquer outro quadro de convivência, o “lugar” onde podem ser cultivados os valores, as virtudes e as competências que constituem o melhor fundamento da educação para a cidadania.



 Escrito por Leandro às 22h16
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Eu também sou mulheeeerrrrrrr

Uma pessoa mandou um mail para mim e para um grupo de amigos e conhecidos e anuncia que nasceu alguém. Esse alguém é fruto do casamento do filho dessa pessoa com uma mulher.  O nome desse alguém que nasceu não deixa claro qual é o seu sexo. Entre as pessoas que estavam na lista do mail figurava uma importante e conhecida feminista da Bahia. Prontamente, ela respondeu que o ser que acabou de nascer seria muito bem vindo no grupo de pesquisa da qual ela faz parte, seria uma espécie de continuadora dos trabalhos do tal grupo.

Um outro membro da lista alerta a pesquisadora feminista que o tal ser que nasceu é do sexo masculino. A feminista pede desculpas e então desejou que o homem que nasceu seja um homem tal como desejam as feministas. Um outro membro da lista disparou  algo do tipo: “pensei que você já tivesse evoluído e aceitasse homens no grupo de pesquisa, ou que homens possam pesquisar sobre as mulheres”. Depois disso tudo, eu mandei um convite para que todos participem da mesa-redonda que vou coordenar no Enecult, dia 29 de maio (vejam programação completa em www.enecult.ufba.br).

Essa pequena história ilustra muito bem o que os teóricos queer tem discutido ao longo dos últimos anos. Apesar de toda essa discussão, as feministas baianas, pelo menos a tal autora dos mails, faz de conta que essa discussão não é importante.  Eu não canso de me surpreender com isso. Como alguém que estuda gênero, e, portanto, sabe e defende que o gênero é uma construção social, cultural e histórica defende, ao mesmo tempo, que somente quem tem vagina pode integrar o grupo de pesquisa das feministas? Certa vez, numa banca de TCC, em plena faculdade católica, eu ouvi uma pesquisadora feminista dizer: "li o seu trabalho como uma mulher". Eu estava na mesma banca e disse, logo após cruzar as pernas e jogar a cabeça para o lado: “eu primeiro queria dizer que eu também li o teu trabalho como uma mulheeeerrrrr”. A platéia ficou surpresa e a mulher (a outra) ficou pálida, com um sorriso nervoso. 

Se ser mulher é gênero (e não um dado biológico) por que eu não posso ler um trabalho como uma mulher o lê? Por que o netinho do meu amigo não poderá integrar o grupo de pesquisadoras feministas? Não é incrível que estejamos tratando disso em pleno 2009?



 Escrito por Leandro às 23h11
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Ser mãe é um saco?

Hoje é Dia das Mães e eu acabei de ligar para a minha. Mas, desde o início da semana, estava pensando em escrever um texto decente para problematizar um pouco a maternidade. Não tive tempo e não farei isso aqui. Se o fizesse, escreveria algo assim:

Outro dia, bebendo com uma amiga que é mãe, ela falou sobre o quão difícil, sofrido e trabalhoso é ser mãe. Normalmente, o que se ouve falar é o quão lindo é ser mãe. E as propagandas da semana apenas reforçaram esse discurso. Na teoria queer, divers@s autor@s criticam duramente o fato do movimento feminista mais tradicional ter se apropriado do discurso da maternidade para transformar essa “diferença” em relação aos homens em ganhos políticos.

Wittig, materialista, ao contrário, por exemplo, diz que as mulheres foram e são usadas para reproduzir, para atender aos interesses do sistema capitalista. Butler, de forma diferente, questiona o quanto esse discurso do movimento feminista exclui as mulheres que não desejam ser mães, como é o caso de muitas lésbicas. Faz parte do projeto dela de criticar a categoria de mulher adotada pelo movimento feminista dominante.

Enfim, penso que ser mãe, para as mulheres, é quase uma necessidade, virou compulsório, assim como a heterossexualidade. Tenho uma cunhada que está a anos querendo ser mãe e não consegue. Ela sofre por isso, especialmente com a cobrança da família. A cada dia, ela ouve: "e quando você vai ser mãe?" Um dia perguntei para ela: "Você precisa mesmo ser mãe? Só assim vai ser feliz?" Ela disse, depois de pensar: "acho que você tem razão". O que quero dizer é que esse discurso de que ser mãe é maravilhoso não sobrevive a dois minutos de bate-papo um pouco mais sério com as mulheres.



 Escrito por Leandro às 17h28
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A reação dos machos

Uma das coisas que mais gosto de fazer é apresentar algumas idéias de teóricos queer para platéias de homens heterossexuais que nunca ouviram falar nada sobre gênero. E isso ocorreu na minha aula da semana passada. Enquanto os "machos" da sala se pronunciavam, discordavam, criticavam, as mulheres concordavam. Abalar a heterossexualidade dos homens é muito mais problemático do que fazer o mesmo com as mulheres. Elas não se incomodam tanto com o assunto. Isso é muito interessante. Em função disso, eu postei o texto abaixo no blog da "disciplina" que ministro na UFBA. Como o assunto tem direta relação com esse meu blog, resolvi postar aqui também.

Pessoas.

Eu estava lendo um texto da psicanalista Maria Rita Kehl e lembrei das reações dos homens da turma da segunda-feira na aula sobre identidade de gênero e sexual (do dia 13 de março). Nós falamos mais sobre homossexualidade e heterossexualidade e ela (Rita) fala mais das diferenças e semelhanças entre homens e mulheres. Eis um trecho, que também explica a reação dos "machos" da sala. Na verdade, os "machos" do mundo estão em crise de identidade. Estamos em plena era da crise da masculinidade. Os comentários em sala evidenciam exatamente isso. Quando a crise é percebida, a angústia se instala.

"No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios - e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher sente a conquista dos atributos "masculinos" como um direito seu, realização de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível se roubar a feminilidade: se a feminilidade é a máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. Já para o homem toda feminização é sentida como perda - ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem, interessa manter a mulher à distância, tentando garantir que esse a mais inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.

A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem, se deixar de ser homem" (Kehl, 1996, p.26-7)

KEHL, Maria Rita. A mínima diferença. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

Em vista de nossa discussão em sala, eu continuaria, paradiando Kehl:

"A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos heterossexuais e homossexuais são para o homem heterossexual mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem heterossexual se vê diante da pretensão de outro homem homossexual de ser também homem, ou quando um homem heterossexual percebe que também ama outros homens e assim deixa de ser aquele homem idealizado, fantasioso, naturalizado pela cultura".

Um bom final de semana chuvoso.



 Escrito por Leandro às 20h09
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Eu sou do feminismo lésbico negro?

As lésbicas são mulheres? A pergunta dominou as "discussões" de uma mesa-redonda realizada ontem, na Faculdade de Economia, da UFBA, por ocasião do lançamento do livro da pesquisadora Nadia Nogueira (Invenções de si em histórias de amor - Lota Bishop). A resposta para essa questão já foi dada pela Monique Wittig. Para ela, as lésbicas não são mulheres, pois fazem parte de um terceiro gênero. As lésbicas estariam fora do contrato heterossexista, da heteronormatividade, que atende aos interesses reprodutivos. É claro que estou simplificando a tese de Wittig. Alguns dos principais textos dela podem ser lidos em El pensamiento heterosexual y otros ensayos (Egales, Madrid, 2006).

Para Nadia, algumas lésbicas podem ser mulheres (pois estão, de alguma forma, inscritas dentro da heteronormatividade) e outras não. É mais ou menos a mesma idéia defendida por Butler, já em Problemas de gênero, tantas vezes citada aqui e na mesa-redonda de ontem. Essa idéia parte do princípio de que devem, podem e existem tantos gêneros quanto nossa imaginação puder criar. E o fato do sujeito ser homossexual não o livra da heteronormatividade. Aliás, eu acredito que o contrário esteja acontecendo. A cada dia que passa, vejo mais e mais gays e lésbicas totalmente inseridos nos padrões heteronormativos. E as telenovelas constróem e refletem isso na telinha.

Mas eu estou fazendo essa pequena introdução para dizer outra coisa. Apesar dos pesquisadores concordarem e defenderem que é necessário quebrar os binarismos, os estereótipos e as categorias fixas e fechadas, eles próprios, depois de alguns segundos, voltam a usar os binarismos, estereótipos, categorias fechadas etc etc. Apenas dois exemplos: primeiro se defende a pluralidade dos gêneros, para logo depois usar as categorias de homem e mulher, para logo depois falar de feminismo lésbico. O que é o feminismo lésbico senão uma categoria? Quem entra nela? Apenas as lésbicas, ou aquelas mulheres que escreveram sobre o assunto, ou aquelas escritoras lésbicas que assumiram que são lésbicas?

E o tal de feminismo lésbico negro? Eu posso entrar nele? Aposto que não, mas provavelmente eu seja bem mais próximo dessa categoria do que as pessoas que estavam assistindo aquela mesa-redonda. Sempre lembro da minha entrevista com Hall. Ele disse, referindo-se a quem acredita que, para ser negro, é preciso ter a pele negra: "a cor da sua pele não o salvará".

Outro exemplo: Mott pediu a palavra e disse estar feliz de ver tantas lésbicas reunidas em Salvador. Fez a sua clássica pergunta: quem é lésbica aqui? Poucas levantaram a mão. E ficou visível que não era um sinal de "ficar no armário", afinal, o ambiente era totalmente friendly. E ele disse: "nossa, pensei que vocês todas eram lésbicas"!



 Escrito por Leandro às 09h51
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Entre os muros da escola

Agora é mesmo oficial. Sou professor da UFBA. Deixei a UFRB, Cachoeira e curso de Jornalismo para ser professor do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades. Muitas mudanças. Não sou mais, provavelmente nunca mais serei, professor de jornalismo, de comunicação. Nesse novo curso, não temos disciplinas. Elas são chamadas pelo estranho nome de componentes curriculares. Realmente elas não são disciplinas, mas precisamos de um nome melhor. É uma das poucas vezes que falo de mim nesse blog. Mas as mudanças são muito grandes mesmo na minha vida de professor. Deixar de olhar o mundo apenas via jornalismo é uma tarefa muito interessante e com certeza vai influenciar esse olho queer. Por isso resolvi escrever sobre. Tenho certeza de que não sentirei falta do jornalismo. Por que? Ele piora a cada dia. Meus ex-alunos colaboram com isso (é claro que existem outros fatores também). Não que eu nutra uma expectativa muito diferente em relação aos meus alunos do BI, mas pelo menos respiro outros ares, ministro aulas diferentes, leio outros autores, outros assuntos, releio outros.

Pensei sobre a capacidade do professor influenciar e ensinar os seus alunos depois de ver o filme Entre os muros da escola. É possível ensinar alguém? E quando esse alguém é um adolescente insuportável? E quando esse alguém é um jovem ou adulto que apenas olha o mundo com base nos paradigmas que ele já tem? Como é possível que esse ser humano aprenda algo nessas condições? Como dizia Freud, clinicar, governar e ensinar são tarefas impossíveis. Por isso, a cada dia, me contento com pequeninas mudanças, pequeninos avanços. Se não fosse assim, eu não suportaria.



 Escrito por Leandro às 14h38
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Nada e tudo mudou

Na mensagem anterior, disse que o discurso de Milk e do movimento gay dominante é datado. Mas o que mudou da década de 70 para cá? Conseguimos tantas conquistas que não precisamos mais de afirmação da identidade? Não sofremos mais preconceitos?

Ouvi essas perguntas várias vezes. Quando dizemos (e aqui o plural se deve pelo fato de eu apenas estar repetindo o que outros já dizem, não há nada de original naquilo que escrevo) que não queremos afirmar a identidade, isso significa apenas que não temos como fixar a nossa identidade. Por mais que queiramos, isso é uma operação impossível. Mas podemos, e devemos, creio, afirmar em alguns momentos, mas sabendo que essa é apenas uma estratégia momentânea. Logo, o que mudou foi a forma de pensar a identidade.

Quanto aos preconceitos, acho que eles diminuíram muito pouco e as conquistas, no Brasil em especial, ainda são ridículas. Mas atacar os preconceitos através do discurso da igualdade cria preconceitos contra quem não se enquadra como igual. Esse é o problema. E também contra quem vive mais intensamente o trânsito de sua identidade sexual, que sempre está em construção, não é um dado acabado, como explicam certas correntes da psicanálise (por isso, há sim ex-gay, ex-hetero, ok?).

E isso não ocorre apenas no que se refere à identidade sexual. Ontem fui ver Gran Torino, novo filme de Clint Eastwood. O filme é cheio de piadas homofóbicas, mas não quero falar disso. O filme mostra claramente, e de forma muito interessante, o processo de identificação do personagem principal, como ele, já idoso, percebe com o quê ele se identifica. Também mostra os conflitos identitários em um mundo cada vez mais globalizado. E mostra o quanto ser macho é uma performance que se aprende no dia a dia (viva a bula Butler!!). Pena que o filme não consiga abandonar os velhos clichês do cinema americano. Mas isso é outra história.



 Escrito por Leandro às 11h21
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