Sovando um mate
Depois de um 2005 quase sem praia e cinema, 2006 será de muitos filmes e Porto da Barra. Hoje, em função da maré cheia, preferi ir ao Cinema do Museu para ver O mais belo dia de nossas vidas. Estava passando o trailer do documentário da Bethânia e tudo ficou escuro. Deu uma pane no sistema. Enquanto esperávamos o conserto, um rapaz e uma mulher protagonizam, nas minhas costas, o seguinte diálogo:
- Você foi lá ver o que houve? – disse ela.
- Sim, e tive que bater forte na porta, ele nem tinha percebido que a imagem não tava aparecendo na tela – respondeu o moço.
- Te vi outro dia no Bahiano – continuou ela.
- É mesmo? Em que filme?
- Flores partidas. Você tava usando uma bata, por isso eu lembrei.
- Ah, era eu sim. Eu uso batas, minha não gosta muito, mas eu gosto.
- Mãe é assim mesmo.
- É, ela acha meio estranho. É que ela também usa.
- E você gostou de Flores partidas? – perguntou ela.
- Adorei, muito bom. Ele (suponho o ator principal) está excelente.
- É, deixa a vida passar. Muitas pessoas fazem isso.
- É.
- Estou querendo muito ver aquele filme do diretor chinês, que foi indicado ao Oscar hoje - continuou ela.
- Ah, sim, dos caubóis!
- Sim, esse mesmo. Parece que eles têm uma relação homossexual mal resolvida.
- Pois é, eu soube. Puxa vida, até os caubóis, que sempre foram meus heróis! Não tenho nada contra, mas acho esquisito! - disse ele.
- É, mas parece que ele conta isso de uma maneira legal, dizem que está bem feito.
- Não tenho nada contra, até pode ser legal como ele trate isso.
- É.
O papo continuou e eu fiquei pensando no preconceito velado da fala do rapaz, que tem uma voz meio afetada e usa batas. Ele dizia não ter nada contra o homossexualismo, mas os seus heróis não podem ser gays. Grande contradição de um filho que usa roupas esquisitas. Um herói pode ser tudo, menos ser gay. São em falas como estas que as diversas faces da homofobia aparecem. Eu tive vontade de dizer tudo isso, mas não estava a fim de discutir. Logo depois, fomos informados que a sessão não iria acontecer. Preferi ir para casa inaugurar minha nova cuia.
Escrito
por
Leandro
às
17h42
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