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Dez anos sem um dragão de escritor

No dia 25 de fevereiro de 1996, morreu Caio Fernando Abreu, em Porto Alegre. Lembro deste dia. Eu o havia descoberto há apenas uns três anos, lia seus livros e acompanhava seus textos semanais na Zero Hora. Em um deles, revelou que era portador do vírus HIV. Caio, para mim, é o melhor escritor do Brasil. Não sou um especialista em literatura, mas o texto da prima da Christiane F é maravilhoso. Ele teve um olho queer como poucos. E soube contar a alma queer com lirismo.

 

Lembrei hoje de Caio porque comprei a Bravo!. Além de um excelente texto de Luís Augusto Fischer, a revista publica um pequeno conto inédito de Caio, escrito quando eu tinha dois anos.

 

Eu raramente leio duas vezes o mesmo livro ou vejo duas vezes o mesmo filme. Hoje decidi: vou reler os livros dele que tenho e vou resenhá-los para os três leitores deste blog. O primeiro será Os dragões não conhecem o paraíso. De todos os que já li, foi o mais impressionante. Começa com o conto Linda, uma história horrível.



 Escrito por Leandro às 16h56
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Pela primeira vez, leio um texto na imprensa sobre a reação dos héteros ao assistir ao sublime filme. Se o texto abaixo é o primeiro, ou um dos poucos, trata-se de mais uma prova da falência do jornalismo.

BARBARA GANCIA

Todos os caubóis são gays

Em pleno 2006 A.D., dá para crer nas reações que o filme "Brokeback Mountain", dirigido por Ang Lee, está gerando?
Na sessão do Kinoplex a que assisti, qualquer aproximação física entre os dois caubóis gerava intensas gargalhadas (ou terá sido riso histérico?) na platéia. Em contraste, no shopping Frei Caneca, o centro de compras preferido dos gays paulistanos, o filme é encarado como solenidade, e o público sai do cinema enxugando as lágrimas e assoando o nariz.
Assisti ao drama dos dois vaqueiros do Wyoming na companhia de um amigo português, um sujeito refinadíssimo, cultíssimo. Notei que ele não moveu um músculo durante toda a exibição. Assim que as luzes acenderam, perguntei se tinha gostado. Ele fez uma careta e, com seu sotaque delicioso, respondeu: "Não m'acrescentou nada".
Outro amigo (e colega do canal Bandsports), o narrador esportivo Silvio Luiz, costuma tirar uma tarde por semana para ir ao cinema. Foi ver "Brokeback Mountain", disse-me, "por ser um filme que está concorrendo ao Oscar". Do cinema, Silvio se dirigiu à sede do grupo Bandeirantes, no Morumbi, onde o encontrei vagando pelos corredores com os olhos esbugalhados. "O que é aquilo?", perguntou-me, atônito, o mestre. "Como pode um homem barbado beijar outro?" E, antes de ouvir qualquer tipo de argumentação, sentenciou: "Que coisa mais repugnante!"
Já ouvi até relatos de marmanjos que preferiram esperar a mulher do lado de fora da sala de cinema a assistir "Brokeback Mountain" (ou Boreback Mountain) até o final.
Mas, vem cá: por que esse espanto todo? Quando foi que a máxima "todos os caubóis são gays" deixou de ser uma verdade universal? Ora, ora. Quem não se lembra do figurino de Roy Rogers ou do patriarca Ben Cartwright, que vivia em Bonanza com quatro filhos adultos e solteirões? Quem não conhece a roupinha fashion de James West, a estreita amizade entre Butch e Sundance ou as imagens dos caubóis da terra de Marlboro, que mais pareciam pin-ups de Bruce Weber?
Os personagens de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal em "Brokeback Mountain" não são exatamente Rosa e Rosinha, a dupla sertaneja que usa chapéu de vaqueiro cor-de-rosa. Mas quem leu "Mulheres Apaixonadas", de D.H. Lawrence, ou ouviu falar no culto à masculinidade que vem desde os tempos de Esparta, não poderá dizer-se chocado com a virilidade dos amassos dados no filme. Rocky e Hudson, os caubóis gays de Adão Iturrusgarai, assinam embaixo.



 Escrito por Leandro às 13h34
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A letra

Para quem não conhece, eis a letra da tal música.

 

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz?
E amanhã se este chão que eu deixei
For meu leito e perdão
Vor saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor

Brotar do impossível chão

 

 



 Escrito por Leandro às 19h21
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MEU DISCURSO

No sábado passado, vivi momentos de grande emoção. Fui homenageado como patrono na segunda turma de formandos em jornalismo da Faculdade Dois de Julho. Para entender o discurso, é preciso saber que eu fui demitido da faculdade por ter apoiado um movimento dos alunos. Eles protestavam contra a nova direção, que resistia a investir em melhorias para o curso.

 

HÁ MAIS OU MENOS 20 ANOS, EM UMA TARDE DE MUITO CALOR NUMA CIDADEZINHA PERDIDA NO INTERIOR DO RIO GRANDE DO SUL, EU DESCOBRI, POR ACASO, QUE A BAHIA FARIA PARTE DA MINHA VIDA.

 

NAQUELA ÉPOCA, MEU IRMÃO HAVIA COMPRADO UMA GRANDE COLEÇÃO DE DISCOS E GANHAVA UM DINHEIRO TOCANDO MÚSICAS EM BAILES DA REGIÃO.

 

NA GRANDE COLEÇÃO DE LPS, ALGUNS NUNCA ERAM EXECUTADOS NOS BAILES. FOI NESTA SEÇÃO QUE EU ENCONTREI A BAHIA, OU MELHOR, ENCONTREI UMA BAIANA POR CUJA VOZ ME APAIXONEI PERDIDAMENTE. MAS NÃO FOI APENAS A SUA VOZ POSSANTE E GRAVE QUE ME CHAMOU A ATENÇÃO. ELA CANTAVA UMA MÚSICA QUE CONSEGUIU ME MOTIVAR A SAIR DO MARASMO E A LUTAR PELO MEU, ATÉ ENTÃO, SONHO IMPOSSÍVEL DE SER JORNALISTA.

 

ALGUM TEMPO DEPOIS, EU RESOLVI SAIR DA CASA DOS MEUS PAIS E FUI, FINALMENTE, ESTUDAR JORNALISMO. NOS MOMENTOS MAIS DIFÍCEIS DA GRADUAÇÃO, NAQUELAS SITUAÇÕES EM QUE TEMOS VONTADE DE DESISTIR DE TUDO, EU OUVIA A MESMA MÚSICA. ELA ME DAVA FORÇAS PARA CONTINUAR A BATALHA.

 

NA VERDADE, A LETRA DA MÚSICA ACABOU SE TORNANDO UMA ESPÉCIE DE MEU HINO PARA SER ENTOADO QUANDO O INIMIGO APARENTEMENTE INVENCÍVEL PARECIA ESTAR PRESTES A VENCER. E NÃO FORAM POUCAS AS OCASIÕES EM QUE ELA PRECISOU SER OUVIDA. PELO MENOS UM DESTES MOMENTOS VOCÊS CONHECEM MUITO BEM.

 

E FOI A PARTIR DESTA MÚSICA QUE EU RESOLVI VIRAR ESSE MUNDO E ME DEDICAR INCONDICIONALMENTE AOS PROJETOS NOS QUAIS EU ACREDITO. HOJE, SENDO HOMENAGEADO COMO PATRONO DE VOCÊS, TENHO A CERTEZA DE QUE O PROJETO ATRAVÉS DO QUAL NÓS NOS CONHECEMOS, ALCANÇOU ALGUMAS DE SUAS PRINCIPAIS METAS: SEDIMENTAR NOS ALUNOS E ALUNAS A SUA CONDIÇÃO DE CIDADÃOS CRÍTICOS, QUE NÃO TEMEM OS AUTORITÁRIOS. QUE NÃO RECUAM FRENTE ÀS PRIMEIRAS AMEAÇAS E AGRESSÕES VERBAIS E FÍSICAS. QUE LUTAM PELOS SEUS IDEIAIS E QUE, NO FINAL DE TUDO, SABEM RECONHECER O TRABALHO DOS SEUS PROFESSORES.

 

AGORA, EU PEÇO QUE VOCÊS JAMAIS SE ESQUEÇAM DE TODAS ESTAS ENRIQUECEDORAS EXPERIÊNCIAS E APLIQUEM-AS TAMBÉM NO JORNALISMO. PRECISAMOS DE PESSOAS QUE TENHAM CONDIÇÃO DE REVOLUCIONAR O JORNALISMO, PARA QUE ELE DEIXE DE SER OFICIALISTA, CHAPA BRANCA, MEDROSO E INSTRUMENTO A SERVIÇO DE AUTORITÁRIOS TRAVESTIDOS DE DEMOCRATAS.

 

VOCÊS SABEM QUE ISSO NÃO É UMA TAREFA FÁCIL. MAS SE CADA UM FIZER A SUA PARTE, PODEMOS MODIFICAR PELO MENOS ALGUMA COISA.

 

EM VÁRIOS MOMENTOS, TENHO CERTEZA DE QUE VOCÊS SE PERGUNTARÃO: “QUANTAS GUERRAS TEREI QUE VENCER POR UM POUCO DE PAZ?”. NESTES MOMENTOS, MEUS QUERIDOS ALUNOS E ALUNAS, OUÇAM A MÚSICA INTERPRETADA MAGISTRALMENTE POR MARIA BETHÂNIA. TENHO CERTEZA QUE VOCÊS TERÃO SUAS ENERGIAS RENOVADAS E, EM UM DIA COMO HOJE, VOCÊS PODERÃO DIZER QUE VALEU A PENA DELIRAR E MORRER DE PAIXÃO. E MAIS ADIANTE, JUNTOS OU NÃO, NESTE PLANO ESPIRITUAL OU NÃO, VEREMOS QUE VAI TER FIM A INFINITA AFLIÇÃO, E O MUNDO VAI VER UMA FLOR, BROTAR DO IMPOSSÍVEL CHÃO.

 

AGORA, CONVIDO TODOS PARA OUVIR A MÚSICA, REGRAVADA NO CD IMITAÇÃO DA VIDA, COM UM TEXTO INTRODUTÓRIO DE FERNANDO PESSOA.

 

(TOCA A MÚSICA)

 

A LETRA DA MÚSICA SONHO IMPOSSÍVEL É DE JOE DARION E MITCH LEIGH, NA VERSÃO DE CHICO BUARQUE E RUY GUERRA.

 

MUITO OBRIGADO.



 Escrito por Leandro às 18h44
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