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A polêmica esperada - Parte II

Continuo o post anterior. Eu estava escrevendo sobre a minha sensação de insegurança em função da minha experiência. Na verdade, em certa medida, o mesmo ocorre com o consumidor das notícias sobre violência. O sujeito vê aumentar o seu medo por saber que, em determinados lugares, aconteceram episódios violentos. Por isso, sempre digo que o grande dilema do jornalismo é: as notícias tratam sobre fatos extraordinários, mas constroem uma realidade como se ela fosse a realidade ordinária.

 

Em análises, eu evito correr este risco, mas o jornalismo, em geral, ainda não conseguiu (nem sei se conseguirá algum dia) encontrar alguma maneira de deixar de interferir tanto no real. Ou seja, como cobrir a violência real do Carnaval (baseada em fatos), sem criar a imagem de que toda a festa é incrivelmente violenta (coisa que ela não é, ainda, acho eu)?

 

Na verdade, dificilmente teremos uma resposta clara sobre se aumentou ou não a violência no Carnaval baiano. Um representante da imprensa já disse que, em outros momentos, foi pressionado para não divulgar os fatos. Quem garante que os governos anteriores não manipulavam os dados estatísticos? E será que este governo não fez o mesmo depois da divulgação das imagens dos dois jovens atingidos pelas balas de revólver em plena Barra? Como explicar que, na segunda feira, a polícia informa que os números da violência cresceram 30% e, dias depois, diz que tudo foi igual ao ano passado? Será que a violência do Carnaval deste ano não teve uma cobertura maior em função de uma rede de televisão ter filmado tais cenas? Ou será que a cobertura aumentou porque o governo é do PT? Duvido que alguém consiga dar respostas claras e exatas para estas questões.



 Escrito por Leandro às 09h55
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A polêmica esperada

Depois da repercussão das mortes no circuito do Carnaval e dos arrastões nos ônibus, veio a polêmica pela qual eu já esperava: a eventual motivação política envolvida na divulgação das notícias. A manchete do A Tarde de hoje é: "Wagner acusa Globo de difamar Carnaval da Bahia". O Correio da Bahia, diz: “Wagner diz que violência no Carnaval é invenção”.

 

Tenho algumas coisas a dizer sobre. O governador criticou, segundo A Tarde, uma reportagem exibida no Jornal Nacional. Não vi, nos telejornais da TV Bahia, grande espaço para a cobertura da violência. Isso não significa dizer que não houve alguma motivação política. Acho que neste Carnaval, talvez pela primeira vez, os jornalistas (da TV Bahia e das outras emissoras) tiveram mais liberdade para contar o que ocorreu na festa.

 

Digo isso porque o próprio Raimundo Varela, no seu programa da última terça-feira, confessou que, em outros carnavais, não deixavam ele divulgar os fatos violentos. Varela disse que alegavam (ele não nomeou ninguém) que as notícias iriam prejudicar a festa e causar apreensão nos familiares dos foliões. Ora, então os governos do PFL censuravam a imprensa baiana nos outros carnavais???

 

As matérias sobre violência, exibidas especialmente a partir de terça, informavam que as ocorrências tinham aumentado em 30%. Os dados eram oficiais. Na quarta de noite (segundo os jornais de hoje), a Polícia Militar informa que “foram registrados 1.714 agressões físicas, contra 1.715 no ano passado; 74 assaltos a ônibus, ante 75 em 2006; e 1.460 ocorrências gerais (roubos, furtos e outros crimes), contra 1.320. Houve também 97 prisões de pessoas com drogas e armas, ante 54 em 2006.”

 

Os números acima (concordando com o governador) são pequenos para o tamanho da festa. Por isso, diz ele, não podemos dizer que o Carnaval da Bahia é violento. Mas, em função do meu post anterior, certamente este foi o Carnaval em que eu tive a maior sensação de violência. Apesar disso, não posso usar a minha sensação particular para compreender o geral. Amanhã eu continuo.



 Escrito por Leandro às 09h42
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O pior do Carnaval

O meu nono Carnaval na Bahia foi um dos melhores e um dos piores. Até a madrugada desta terça-feira, tudo corria direitinho. Em poucos segundos, tudo mudou. A uma distância de poucos metros, eu e meus amigos e amigas assistimos a execução de um rapaz, com dois tiros na cabeça. Uma menina também foi atingida e, segundo os jornais, corre o risco de ficar paraplégica.

 

O crime aconteceu em nosso ponto de encontro, na Avenida Oceânica. Não será mais. Uma daquelas balas poderia ter me atingido. Segundos antes, eu estava exatamente no local onde as vítimas estavam e passei na frente do grupo de onde partiram os tiros. Só sai do lugar porque minhas amigas Lícia e Liza me chamaram. Elas achavam que aquele grupo iria provocar uma briga no local. Eu atendi ao chamado e, talvez por isso, ainda esteja aqui.

 

Nós, que vimos a cena horrorosa, preferimos ficar em casa nesta última noite de festa. Um cinegrafista da TV Aratu estava próximo e filmou os corpos estendidos no chão. Acabo de ver as imagens na tevê e a sensação ruim, que se apossou de mim depois daquele momento, voltou.

 

Desta trágica experiência, reafirmo algumas idéias. Primeira: as mortes têm valores diferentes para a imprensa. Enquanto o menino arrastado em um carro no Rio de Janeiro chocou a imprensa e, por conseqüência, o país, o rapaz que eu vi ser executado, até agora, não mereceu uma cobertura a altura da tragédia. A TV Bahia, por exemplo, no meio dia de hoje, chegou a dizer que o crime ocorreu em Ondina. Na verdade, o crime aconteceu na Barra, perto da balaustrada quase em frente ao Beco da Off (que, aliás, foi tomado pelos ladrões e não pode ser mais chamado de um ponto de encontro de gays e lésbicas).

 

Segunda idéia: ainda acho que o Carnaval de Salvador é relativamente seguro. Oficialmente, são dois milhões de pessoas nas ruas (número incorreto ou, no mínimo, questionável – já escrevi sobre isso). Com tanta gente e álcool, confusões e crimes são muito difíceis de serem controlados ou impedidos. Sempre digo que esta combinação, no Rio Grande do Sul, resultaria em um número maior de mortes e brigas do que as resgistradas aqui. Por estas e outras questões, não vou desistir de sair na pipoca e de brincar meu Carnaval, uma festa que amo. Mas, antes, preciso esquecer daquelas cenas. Um ano deve bastar, espero.



 Escrito por Leandro às 17h47
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