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O propósito da fechação

Na última quarta, fomos ver Guilda, no Vila Velha. Eu estava atraído pela peça em função de sua pretensão em discutir as fronteiras entre as identidades sexuais. Interessado no assunto, resolvi ir. A peça é uma fechação do início ao fim. Eu não gostei de quase nada. E fiquei me perguntando: por que um olho queer não gosta de fechação? Isso não é contraditório? Se eu gosto de uma fechação no Âncora do Marujo, por que não gosto no Vila Velha? Logo eu, que defendo que a próxima parada gay deveria ter o lema: "pelo direito de fechar"!

 

Depois de pensar um pouco sobre o assunto, cheguei a duas respostas:

 

  1. É difícil alguém conseguir imitar a fechação. Não acho que é impossível, mas tá aí uma coisa complicada de fazer. Encontrar o ponto da fechação é algo para poucos e não basta ser gay para fechar. Eu mesmo sou péssimo fechando. Sóbrio, então, é quase impossível. É preciso entender profundamente (de preferência de forma inconsciente) o que significa o ato de fechar. E os atores e atrizes não chegam neste ponto, ainda que pelo menos um deles também feche, com melhor performance, no Âncora do Marujo.
  2. Tentar imitar e fechação fica ainda mais complicado quando a proposta é contar uma história com algum propósito. A fechação combina com a falta de propósito, ou melhor, quando o único propósito é fechar, e ponto. Querer colocar um discurso na fechação, a exemplo de uma crítica ao corpo ou de uma identidade sexual estática, como a peça tenta fazer e não consegue, torna a fechação ainda mais artificial.

Estou lendo o livro Depois da teoria, de Terry Eagleton, e por causa dele tive vontade de escrever sobre a peça. Terry faz uma crítica aos estudos culturais e está me alertando para coisas bem interessantes sobre as quais eu tenho pensado e já escrevi aqui. Ele fica num morde a assopra aos novos teóricos. Em determinado ponto, ao considerar as colaborações dos novos, ele diz: “A mera falta de propósito é uma questão profundamente subversiva”. Penso que aí reside o problema central da peça. Eles querem ser subversivos, usam uma performance subversiva (a depender de onde está o espectador, claro), mas insistem em querer ter um propósito. E não conseguem, inclusive por falhas no texto e na direção, dizer qual é esse propósito. Se não tivessem propósito, talvez fariam um espetáculo bem mais interessante. Assim, a única coisa realmente interessante, para este olho queer, é a performance do lindo ator negro, semi nú, na peça. Ah, e que, depois da peça, faz questão de dizer: "eu tenho um filho". Mas isso rende outro post. 



 Escrito por Leandro às 16h18
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