Fila e cobertura movida pelo estômago
Assisti com algum interesse a cobertura da imprensa em geral e da TV Bahia ao funeral de ACM. Já esperava o endeusamento do político, transformado em defensor da democracia, que lutou pelo fim da ditadura e é o responsável por tudo o que se fez na Bahia nas últimas décadas. Pensei que veria isso apenas na TV Bahia. Ledo engano. O resto da imprensa quase se igualou ao jornalismo da emissora do próprio ACM. Muito disso foi feito pela omissão.
Uma das mais graves omissões foi a pouca ou inexistente informação sobre o período em que ACM foi Ministro das Comunicações. Foi ali que ele sedimentou um dos maiores problemas da comunicação brasileira, que talvez nunca seja solucionado. Ao distribuir canais de TV e emissoras de rádio para políticos amigos, impediu a pluralidade das informações no país. Sem ser maniqueísta e adepto de teorias conspiratórias, por isso vimos o coro da imprensa na cobertura da morte de ACM.
Apesar disso, como sempre destaco aos meus alunos, nem tudo pode ser controlado pelos donos dos meios de comunicação. E foi na própria TV Bahia que coletei estas duas pérolas ditas por pessoas que estavam na fila para ver o corpo do senador:
“Ele era uma pessoa muito simples. Adorava comer lagosta com a gente lá em Belmonte”.
“Desde ontem eu choro. Eu sou muito grata a ele porque ele colocou toda a minha família no Estado”.
A última frase sintetiza o pensamento do meu amigo Alberto: “esta é uma fila movida pelo estômago”.
Outras duas coisas que me incomodaram na cobertura: 1) ninguém ousou dizer que o funeral foi pífio para o tamanho da história de ACM; 2) a crença de que o carlismo morre com o enterro de ACM, como se a história pudesse ser dividida assim, em blocos.
Agora, espero que o Fernando Morais cumpra a sua promessa. Entrevistei ele em 2000, quando eu trabalhava no Correio da Bahia. Ele deu a entender que fez um acordo para lançar a biografia do senador apenas depois da morte de ACM. Naquela época, ele já tinha 200 horas de entrevistas gravadas apenas com ACM. Quero ver até onde Fernando vai. Quero ver se ele vai até, por exemplo, nas obscuras histórias que envolvem a homofobia de ACM.
Escrito
por
Leandro
às
09h50
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