Reflexões sobre a parada gay
Domingo ocorre a sexta parada gay em Salvador. Tem tudo para ser uma das menores e mais mornas. Não deve ser tão pequena quanto a primeira, quando apenas dez mil (dizem os organizadores) seguiram debaixo de chuva do Campo Grande até a Praça Castro Alves, onde rolaram alguns shows. Eu estive na praça naquele final de tarde. No A Tarde de hoje, uma pequena nota informa que a parada deste ano não recebeu verbas do Ministério da Cultura e a iniciativa privada baiana ainda resiste investir no setor. Eu pergunto: é apenas por causa da falta de grana que a parada deste ano não foi divulgada? Por que nenhuma atividade de preparação da parada foi realizada? Por que o Grupo Gay da Bahia não botou a boca no trombone antes? Por que o GGB não forma uma ampla comissão de organização da parada, aos moldes da que existe em São Paulo?
Não preciso dizer que o GGB presta e já prestou inestimáveis serviços à comunidade gay. Mas isso não significa que não possamos apontar alguns problemas e críticas. Por isso, acredito que as respostas das perguntas podem ser encontradas se considerarmos pelo menos dois aspectos:
1) O GGB já não é mais o mesmo. Depois da separação entre Marcelo Cerqueria e Luiz Mott, algo se perdeu. Talvez o interesse, o tesão, o rumo. Não seria, então, o caso de tentar aglutinar um grupo maior para ajudar a tocar o barco? Por que o GGB não consegue reunir um número maior de voluntários? Por que tantos gays não se sentem representados pelo GGB? Que fique claro: eu não estou me candidatando a nada.
2) O GGB não critica o Ministério da Cultura por não ter dado verba para a parada porque Marcelo não quer criticar os seus companheiros de partido. É aquilo que o Silvério Trevisan diz há anos: o movimento gay está na mão do PT e ninguém critica o partidão. Tá tudo sempre lindo, dominado. O movimento se contenta com alguns cargos e com o projeto Brasil sem homofobia que, a rigor, não saiu do papel. E por que o governo Lula não luta pela aprovação da lei que torna crime a homofobia (tema muito bom da parada deste ano) e aprova a união civil? Por que não usa o mesmo poder que demonstra na aprovação da CPMF, por exemplo? Porque boa parte do PT ainda é homofóbica também. Uma parte do PT e do restante da esquerda (se é que ainda podemos chamar assim) ainda não sepultou totalmente a velha idéia de que homossexualidade é coisa de anti-revolucionários. Outra parte, formada pelos igrejeiros, a considera pecado. Outra parte não quer colocar em risco a base de sustentação do governo no Congresso. Enquanto isso, só nos resta a festa, o carnaval e a cerveja.
Escrito
por
Leandro
às
09h23
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