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Ainda não temos uma revista gay brasileira

No texto Em busca da normalidade, Sui Generis e o estilo de vida gay, publicado e disponível no site da revista Gênero, Marcus Lima analisa várias edições da falecida revista dirigida ao público gay e, entre outras coisas, conclui:

 

“Nas variadas “falas” que identificamos nos artigos de Sui Generis, expressas nos editoriais, nas imagens dos ambientes freqüentados e produtos a serem consumidos, constatamos uma imagem “ideal” de homossexual, quer seja, o gay bem resolvido psicologicamente, assumido publicamente e bem sucedido profissionalmente.

 

(...)

 

O estilo de vida gay seria, ainda, prerrogativa dos homossexuais bem sucedidos. Embora não encontremos definições explícitas e precisas desse estilo gay que a revista difunde e racionaliza, pudemos, em nossa empiria, registrar algumas características dele. Vestir-se segundo padrões de requinte e contemporaneidade, o que implica roupas produzidas com tecidos e cores menos convencionais; adquirir conhecimento e ser exímio na profissão escolhida, visto que, dessa forma, não se daria brecha para o preconceito no ambiente de trabalho; ter relacionamentos saudáveis, que implica monogamia, sexo seguro e praticado entre gays, exclusivamente; exercitar o corpo nas academias de ginástica, de modo a construir um tipo físico que se oponha ao sujeito frágil e delicado produzido pela representação heterossexual e “dar pinta”, mesmo que apenas em “estado d’alma”.”

 

No último final de semana, comprei e li a nova revista dirigida ao público gay do Brasil (quer dizer, a revista trata mais de seres de outros países. E os deste país incluídos na edição pertencem a uma ínfima parcela). A primeira edição de Junior, criada pelo dono do site Mix Brasil, André Fischer, está nas bancas ao preço de R$ 12 (possivelmente o maior preço de capa das revistas locais). Fischer dá, no editorial, um claro indício sobre as suas influências: a revista Out americana e a francesa Têtu. Ao ler (quer dizer, o mais apropriado seria ver, pois quase não há textos nas 116!!! páginas) a primeira edição, podemos concluir exatamente o que Marcus concluiu sobre a Sui Generis.

 

Em praticamente todos os textos existem referências ao fato da fonte freqüentar academias de ginástica, usar produtos para a pele, roupas de determinadas grifes e freqüentar determinadas festas. E mais: todas as fotos são de pessoas brancas (a começar pelo lindo loiro da capa), exceto uma foto da campanha das cuecas Calvin Klein (a verdadeira cueca de todos os gays!!!), com o lindo ator Djimon Hounsou. Ou seja, negro não é fonte, mas serve como objeto de fetiche. Coisa velha!

 

Para contrabalançar um pouco a ênfase na questão do corpo, um artigo do antropólogo francês Stéphane Malysse, que já morou em Salvador (por acaso, foi o primeiro gringo que eu conheci aqui, numa festa ótima na casa dele). O artigo parece servir mais como um pedido de perdão pela revista endeusar o culto a determinado tipo de corpo, mas a ênfase contrária é tão grande que o texto não alcança o propósito.

 

Além disso, jornalisticamente, a revista é muito ruim. Não há nenhum texto que sequer se aproxime de uma reportagem. As oito (!!!) entrevistas em estilo pingue-pongue seguem o mesmo nível de superficialidade dos demais textos. O ator Carlos Casagrande, que representou um gay (???) na novela Paraíso Tropical, é elogiado. Ou seja, é exatamente dentro da heteronormatividade que a revista, que se diz gay, trabalha. É a total vitória do discurso heterossexual, como tenho defendido neste blog. A diferença é que aqui vemos o discurso da heteronormatividade sendo reproduzido também por meios de comunicação dirigidos ao público gay. E, como se não bastasse, o texto que se apresenta como uma "reportagem" ensina os gays a fazer o conhecido carão!!! O carão é a cara da Junior.

 

Conclusão: ainda não temos uma revista gay brasileira e ainda não temos um meio de comunicação que contemple a diversidade gay.

 

PS: No editorial, Fischer solicitou o envio de opiniões dos leitores. Por isso, estou mandando este texto para o mail da revista. Caso obtenha, postarei a resposta aqui.



 Escrito por Leandro às 12h37
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