Estou há dias querendo escrever aqui, mas não consigo tempo (eu queira tanto falar sobre os livros que li nas últimas semanas, começando com A linha da beleza, de Alan Hollinghurst, que também assisti na TV em mini-série, Eu sou uma lésbica, de Cassandra Rios, Limite branco e Onde andará Dulce Veiga?, dois livros do Caio F. que eu ainda não tinha lido!!! E tem ainda O bispo, sobre Edir Macedo).
Mas hoje é impossível não arranjar um minutinhos para praticar o meu esporte preferido: criticar a imprensa. Nestes últimos dias, fomos bombardeados (expressão típica dos jornalistas) com matérias sobre Camille Paglia, que esteve em Porto Alegre. Os dois jornais impressos da Bahia, nas edições de hoje, dedicam páginas inteiras para ela. Estranhei o interesse, mas logo descobri o motivo. Os jornalistas baianos foram à capital gaúcha a convite da organização do evento, que pretende fazer algo similar em Salvador no próximo ano. Tudo não passa de uma estratégia de marketing, na qual os jornalistas caem como tolos.
Mas não é isso que eu quero tratar. Na matéria que reproduzo abaixo, a jornalista da Folha (que também foi ao evento a convite dos organizadores, leia-se, tudo pago) fala que minha musa inspiradora dos últimos tempos, Judith Butler (achei ótimo ela ser citada num papo do filme Bublle, que eu vi nesta semana - ai, eu também queria escrever sobre), é desafeta de Paglia. Até aí nada de mais, tudo está correto. A pergunta que eu faço é: os leitores de jornais do Brasil sabem quem é Butler? Ela tem o mesmo espaço que Paglia tem na imprensa brasileira?
Segundo a jornalista, Paglia teria dito, sobre Butler e os teóricos de gênero pós-estruturalistas: "Essa ideologia, que diz que o gênero é imposto pela sociedade opressora, encoraja essa visão de que gênero não existe na natureza." Em primeiro lugar, Butler e os demais teóricos não criaram uma ideologia!!! Ela criou e continua criando uma vasta e rica obra que argumenta, entre outras coisas, que a heteronormatividade (e não apenas o gênero) é imposto por uma sociedade sim altamente opressora. Opressora a quem? Não apenas às mulheres, mas a quem ousa se comportar fora do modelo heterormativo.
O que é heteronormatividade? “O termo especifica a tendência, no sistema ocidental contemporâneo referente ao sexo-gênero, de considerar as relações heterossexuais como a norma, e todas as outras formas de conduta social como desviações dessa norma” (Spargo, 2004.p. 86). “Enquadramento de todas as relações – mesmo as supostamente inaceitáveis entre pessoas do mesmo sexo – em um binarismo de gênero que organiza suas práticas, atos e desejos a partir do modelo do casal heterossexual reprodutivo” (Pino, 2007, p. 160).
Enfim, a cobertura sobre Paglia no Brasil revela algumas coisas:
1) a imprensa prioriza a cobertura de pensadores polêmicos, especialmente os conservadores;
2) a imprensa desconhece a obra de quem não é polêmico;
3) a imprensa praticamente só cobre debates e conferências quando eles são promovidos por grandes produtoras de eventos, que cobram caríssimo pelos ingressos. Enquanto isso, discussões muito mais ricas ocorrem de graça nas universidades e ninguém cobre nada. Por que? Porque a imprensa espera o realese, a passagem aérea, o hotel de luxo, a coletiva em um ar refrigerado etc etc etc.
Estou pensando em organizar estas idéias e escrever um texto para o Observatório de imprensa. Se eu tiver tempo.
As referências:
PINO, Nádia Perez. A teoria queer e os intersex: experiências invisíveis de corpos des-feitos. Cadernos Pagu (28), janeiro-junho de 2007, p 149 a 174.
SPARGO, Tamsin. Foucault y la teoria queer. Barcelona: Gedisa, 2004.
A matéria:
Paglia ataca "pressão gay" sobre jovens
Polemista, que está no Brasil, diz que ativismo leva garotos e garotas a definir sexualidade cedo demais
FLÁVIA MARREIRO
ENVIADA A PORTO ALEGRE
Um dito gay corrente é que a atual geração foi a última a ter conflitos para sair do armário, ao menos nos EUA e em alguns círculos no Brasil, dada a maior abertura ao tema. Mas para a escritora e polemista americana Camille Paglia, 60, o pensamento se transforma em problema, sobretudo no ambiente juvenil americano. Paglia -que em entrevista à Folha no mês passado atacou as feministas por não valorizarem as mulheres que preferem cuidar dos filhos em casa- agora diz estar "extremamente preocupada" com a disseminação da cultura e do ativismo gays nos colégios americanos.
Segundo ela, os dois fenômenos são causadores de uma pressão para que garotos e garotas cada vez mais jovens se declarem homossexuais. "Hoje existe nos EUA uma pressão sobre os jovens para que eles se declarem gays em uma certa idade. Sou contra a introdução do ativismo gay nas escolas americanas", afirmou ontem em Porto Alegre, horas antes de se apresentar no seminário Fronteiras do Pensamento, da Copesul Cultural.
"Muitos jovens que apenas são atraídos por pessoas do mesmo sexo decidem dizer "eu sou gay" e adotar esse mundo, excluindo outras possibilidades de expressão, quando poderiam ser bissexuais ou viver uma experiência transitória. É limitador e pode ser destrutivo, principalmente quando garotos e garotas começam a ter experiência com hormônios." Paglia enxerga uma epidemia nos EUA do uso de hormônios para modificar o corpo entre os jovens. Contou que no Smith College, escola de artes de prestígio só para garotas, estudantes usam injeções de testosterona. "Quando se é jovem, a tentação de mudar o corpo é sedutora demais, um risco.
Quando eu era jovem, eu poderia estar convencida de que era isso que eu deveria fazer para expressar minhas ambigüidades. Ao invés disso, me tornei escritora." A companheira de Paglia, autora do clássico "Personas Sexuais" (1990), é, há anos, a artista Allison Maddox. A escritora adotou a filha de Maddison. Mas ela não se define como lésbica e diz que prefere deixar sua sexualidade em aberto.
A escritora tem uma culpada para a tendência que aponta: a influência de teorias de gênero pós-estruturalistas, às quais se opõe e com as quais duela há anos. Uma das expoentes da corrente é desafeta de Paglia, Judith Butler. "Essa ideologia, que diz que o gênero é imposto pela sociedade opressora, encoraja essa visão de que gênero não existe na natureza."
Crítica de arte e literária, Paglia diz ver um efeito danoso da abertura à homossexualidade na cultura contemporânea: o que considera um fechamento do mundo gay, principalmente masculino, em si mesmo. O movimento, diz, impedirá a produção de um novo Tennessee Williams (1911-1983) no cenário americano. "Antes de 1969 o mundo gay era muito fechado, reprimido, o que obrigava os gays a lidarem com mulheres heterossexuais, entendê-las. Tennessee Williams era gay, mas vivia no mundo real, heterossexual. Por isso ele foi capaz de peças com enorme alcance artístico."
A repórter FLÁVIA MARREIRO viajou a convite do seminário Fronteiras do Pensamento