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Um depoimento

Recebi as mensagens abaixo minutos depois de postar o meu texto no blog. É da irmã gêmea univitelina da minha ex-namoradinha. Ela sofreu muito com a morte da Mana. Esse tipo de sofrimento, sem sensacionalismo, deveria ser mostrado na imprensa. Duvido que uma história como a dessas gurias não fosse sensibilizar muito mais do que uma campanha com slogans e balanços (números) sobre as mortes nas estradas.

"Oi Leandro, não sei postar no blog, mas tudo é aterrador quando se fala, mas principalmente se vive a violência no trânsito na pele. Em fevereiro farão 18 anos que a Mana se foi, se foi mas ficou em nossa memória. Ela e tantos outros. Hoje tenho um único filho, olho para ele e penso, penso, e não imagino nada para lá adiante, apenas vivo intensamente tudo, amo intensamente, beijo muito digo tudo o que sinto pois para a Mana não tive tempo de dizer adeus, até mais, te amo, me desculpa.. mas, o coração tenta se aquietar, e que bom que vc também não esqueceu e em sua profissão, como eu, ajuda os jovens e os adultos a se conscientizarem de que precisamos agir, pensar e viver de maneira responsável e nos amar mais. Beijo amigo."

"Eu passei muitos anos com muita raiva dela, de tudo o que aconteceu, do "abandono", mas hoje sinto muita falta, ainda mais quando converso com os amigos de infância, adolescência, com as pessoas que a conheceram, ou quando enxergo gêmeos, fico com o coração partido, isso com certeza vai ficar para o rsto da vida. Mais um beijo."

Meu texto foi publicado no Observatório da Imprensa. Está em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=467FDS003



 Escrito por Leandro às 22h28
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Para minha ex-namoradinha

Na minha ida ao RS, fui bombardeado com notícias e reportagens sobre mortes do trânsito. Por acaso, ao visitar o túmulo do meu pai, passei nas sepulturas de três pessoas (duas meninas e um menino) que morreram em acidentes de automóveis. Os acidentes aconteceram quando eu era adolescente e todas as vítimas tinham a minha idade na época. Eram meus amigos. Uma delas, inclusive, foi a minha primeira namoradinha da infância (sim, eu tive várias). Era linda e escrevia cartinhas de amor para mim. Eu retribuía. No seu túmulo, as flores de plástico estavam fora dos vasos. Uma forte tempestade destruiu parte do cemitério da cidade e tornou o cenário ainda mais aterrador. Arrumei as flores, olhei pra fotinho dela e uma lágrima caiu. Na volta, percebi que a imprensa de todo o Brasil continuava a falar sobre as mortes no trânsito. E assim, pensando na minha ex-namoradinha, que ria quando eu imitava Clodovil (como éramos ingênuos), resolvi escrever o texto abaixo, que enviei para o Observatório da Imprensa.

 

Violência no trânsito: o tipo de cobertura que tem que ter fim

 

Leandro Colling (professor adjunto do curso de jornalismo da UFRB e pesquisador associado ao CULT/UFBA)

 

Nas últimas semanas, os jornalistas concederam um justo espaço para noticiar o grande  número de acidentes de trânsito no Brasil. O grupo RBS, do Rio Grande do Sul, chegou a criar uma louvável campanha para tentar alertar a população. O diretor de redação do jornal Zero Hora (ZH), Marcelo Rech, publicou, no dia 23 de dezembro, uma carta aos leitores e diz, entre outras coisas, que uma das suas frustrações, ao longo da carreira, é a de que as notícias e reportagens escritas ou editadas por ele não tiveram a capacidade de diminuir a violência no trânsito. A carta de Rech, Violência no trânsito, isso tem que ter fim!,  revela como o experiente jornalista pensa sobre o efeito das mensagens na audiência e o papel da imprensa neste problema. No entanto, gostaria de destacar pelo menos alguns aspectos problemáticos da cobertura da imprensa brasileira que, caso fosse melhor realizada, valeria muito mais do que uma campanha. Eles apontam o quanto a imprensa também é responsável pelo problema.

  1. Na grande maioria das notícias e reportagens sobre acidentes de trânsito, os jornalistas tratam de números frios que não sensibilizam ninguém. A cada final de feriadão temos um balanço. Falta contar a história de vida das pessoas envolvidas. Assim, os jornalistas poderiam aproximar o leitor da realidade. Zero Hora tentou fazer isso ao recuperar a história de vida de alguns gaúchos que perderam a vida no trânsito. Uma das melhores reportagens foi publicada no dia 23 de dezembro, disponível no site do jornal (www.zh.com.br). Depoimento dos familiares sobre como é difícil perder alguém próximo também foram utilizados, mas a tendência dos jornais em escrever textos cada vez mais curtos acaba sempre por inviabilizar qualquer mínimo aprofundamento das histórias;
  2. Quando os jornalistas não priorizam os números, priorizam o choro das vítimas e dos familiares e as imagens de carros destroçados. Pessoas presas nas ferragens quase sempre merecem vários minutos nos telejornais e páginas nos impressos. Aqui, ao invés da humanização, o jornalista flerta com o sensacionalismo, a maioria das vezes com a intenção de conquistar a rápida atenção do leitor ou telespectador que, logo depois, terá sua atenção voltada para outra imagem de impacto. Não é por nada que é comum ouvir a seguinte frase das vítimas dessa e de outras violências: “eu pensei que isso nunca iria acontecer comigo e com minha família”. Declarações assim demonstram que a violência só passa a ser um problema para o cidadão quando ele está diretamente relacionado com ela. Ora, em uma sociedade em que o cidadão necessita da mídia para saber o que acontece no bairro onde ele mora, temos aqui um grande problema de comunicação;
  3. As causas dos acidentes de trânsito, segundo os jornalistas, são quase sempre as mesmas: imprudência dos motoristas (eles exageram na velocidade, ultrapassam em locais proibidos, dirigem bêbados etc) e as condições das estradas (existência ou inexistência de buracos, falta de sinalização etc). Ou seja, os jornalistas, por ouvirem quase sempre os policias, atribuem apenas essas causas ao problema. Assim, o problema, grosso modo, acaba sendo apenas de polícia. Na verdade, vários especialistas dizem que o problema é também de educação, de política, de economia e de cultura. Apesar disso, Marcelo Rech, em sua carta aos leitores de ZH, diz a causa principal está na incompetência do motorista e que discutir o resto é perda de tempo. Eis o trecho: “Pode-se querer procurar as causas das mortes nas estradas, nas condições do carro, na falta de fiscalização, nos governos de sempre. É tudo perda de tempo enquanto não nos dermos conta de que a causa primordial está em nós, na imprudência e na incompetência para dirigir que parecem fazer parte da cultura de trânsito no Brasil. Enquanto não entendermos que o problema somos nós - dos irresponsáveis na ultrapassagem aos que avisam com sinal de luz que há policiamento à frente - , as redações serão inundadas por histórias de morte absurdas.”
  4. Em função do modo hegemônico com que a imprensa explica as causas do problema, não é de se espantar com as soluções que ela em geral apresenta. É preciso criar leis mais rígidas, punir os infratores, melhorar as estradas, fiscalizar para evitar o abuso da velocidade. Óbvio que tais questões não devem ser descartadas. Porém, como as causas do problema são bem mais complexas, os jornalistas precisam contemplar também um maior leque de soluções;
  5. Para finalizar, é preciso lembrar que os próprios meios de comunicação constroem, especialmente através da propaganda, o sonho de ter o carro próprio. Quem possui um automóvel, tem status. Além disso, velocidade é poder.

 

Como é que, depois disso, querem paz no trânsito?



 Escrito por Leandro às 11h09
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