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Estética do frio na terra do tambor

Hoje acordei e, como sempre, fui com minha xícara de café ler jornal na internet. Talvez ainda encharcado com a música de Mariana Aydar, resolvi fazer algo pouco comum: ouvir música no computador. Optei pelo novo CD de Vitor Ramil, gravado em conjunto com Marcos Suzano. Quem ainda não ouviu, ouça. Giba, na Serra Gaúcha, foi quem me apresentou o CD em uma noite maravilhosa. Lembro que falei pra ele e pros demais amigos, todos encharcados com espumante, sobre a minha relação com o CD Estética do frio. Disse que esse foi o primeiro CD em que me senti gaúcho, me reconheci. A música produzida no RS nunca me atraiu. No máximo curtia algum som nativista, alguma banda de rock porto-alegrense e, claro, um pouco de Nei Lisboa. Ramil quebrou tudo isso. Nele eu me reconheço, sei de onde vem aquele som, sei o que ele diz, sinto o que ele diz. Mas o novo CD não é igual ao Estética do frio. É uma tentativa de unir a Estética do frio ao pandeiro carioca de Suzano. O frio com o calor, talvez. Ficou lindo.

Depois de ouvir duas vezes o CD, fui visitar o site do Ramil (http://www.vitorramil.com.br) e encontrei este texto abaixo. Fiquei fazendo associações com o livro do Risério, mas não vou escrever sobre isso. Quem quiser, faça as suas. Só destaco uma coisa. Ando meio cansado de me sentir estrangeiro em meu país. Mas a volta não acabaria com isso. Quando volto, me sinto o igualmente estrangeiro. Enquanto isso, é melhor ouvir Ramil. E passar a noite dentro de um tambor na Liberdade.

Eis o texto dele:

Estética do frio

Eu me chamo Vitor Ramil. Sou brasileiro, compositor, cantor e escritor. Venho do estado do Rio Grande do Sul, capital Porto Alegre, extremo sul do Brasil, fronteira com Uruguai e Argentina, região de clima temperado desse imenso país mundialmente conhecido como tropical.

A área territorial do Rio Grande do Sul equivale, aproximadamente, à da Itália. Sua gente, os rio-grandenses, também conhecidos como gaúchos, aparentam sentir-se os mais diferentes em um país feito de diferenças. Isso deve-se, em grande parte, à sua condição de habitantes de uma importante zona de fronteira, com características únicas, a qual formaram e pela qual foram formados (o estado possui duas fronteiras com países estrangeiros de língua espanhola); à forte presença do imigrante europeu, principalmente italiano e alemão, nesse processo de formação; ao clima de estações bem definidas e ao seu passado de guerras e revoluções, como os embates durante três séculos entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha por aquilo que é hoje nosso território e a chamada Revolução Farroupilha (1835–1845), que chegou a separar o estado do resto do Brasil, proclamando a República Rio-Grandense.

Se no passado o estado antecipou-se em ser uma república durante a vigência do regime monarquista no país, no cenário político nacional desta virada de século, marcado pela desigualdade social, a capital Porto Alegre tornou-se referência internacional como modelo bem sucedido de política com participação popular.

Vou falar o mais brevemente possível sobre a minha experiência como artista no Rio Grande do Sul e no Brasil. É importante começar dizendo que essa conferência é uma exposição de minhas reflexões acerca de minha própria produção artística e seu contexto cultural e social. Do tema, a estética do frio, não se pretende, em hipótese alguma, uma formulação normativa. As idéias aqui expostas são fruto da minha intuição e do que minha experiência reconhece como senso comum. A extensão do assunto e o pouco tempo para expô-lo não me permitem desenvolver suficientemente alguns pontos. Mas convido a todos para um debate após esta exposição, para que possamos retomar o que for de seu interesse e compartilhar novas reflexões.

 Nasci no interior, mais ao Sul do que Porto Alegre, na cidade de Pelotas, que em alguns dos meus textos e canções aparece com seu nome em anagrama: Satolep. Minha vida profissional começou e se desenvolveu em Porto Alegre. No entanto gravei quase todos os meus discos no Rio de Janeiro, centro do país e do mercado da música popular brasileira. A exceção é o meu mais recente CD, Tambong, gravado em Buenos Aires, Argentina.*

Aos dezoito anos gravei meu primeiro disco, Estrela, Estrela; aos vinte e quatro troquei Porto Alegre pelo Rio de Janeiro, onde morei por cinco anos. Vivi esse período no bairro de Copacabana, praia símbolo do verão brasileiro, onde, apesar do clima de mudanças discretas entre as estações e do predomínio do calor, mantive sempre alguns hábitos do frio, como o chimarrão, um tradicional chá quente de erva-mate.

Em Copacabana, num dia muito quente do mês de junho (justamente quando começa o inverno no Brasil), eu tomava meu chimarrão e assistia, em um jornal na televisão, à transmissão de cenas de um carnaval fora de época, no Nordeste, região em que faz calor o ano inteiro (o carnaval brasileiro é uma festa de rua que acontece em todo o país durante o verão). As imagens mostravam um caminhão de som que reunia à sua volta milhares de pessoas seminuas a dançar, cantar e suar sob sol forte. O âncora do jornal, falando para todo o país de um estúdio localizado ali no Rio de Janeiro, descrevia a cena com um tom de absoluta normalidade, como se fosse natural que aquilo acontecesse em junho, como se o fato fizesse parte do dia-a-dia de todo brasileiro. Embora eu estivesse igualmente seminu e suando por causa do calor, não podia me imaginar atrás daquele caminhão como aquela gente, não me sentia motivado pelo espírito daquela festa.

A seguir, o mesmo telejornal mostrou a chegada do frio no Sul, antecipando um inverno rigoroso. Vi o Rio Grande do Sul: campos cobertos de geada na luz branca da manhã, crianças escrevendo com o dedo no gelo depositado nos vidros dos carros, homens de poncho (um grosso agasalho de lã) andando de bicicleta, águas congeladas, a expectativa de neve na serra, um chimarrão fumegando tal qual o meu. Seminu e suando, reconheci imediatamente o lugar como meu, e desejei estar não em Copacabana, mas num avião rumo a Porto Alegre. O âncora, por sua vez, adotara um tom de quase incredulidade, descrevendo aquelas imagens do frio como se retratassem outro país (chegou a defini-las como de “clima europeu”).

Aquilo tudo causou em mim um forte estranhamento. Eu me senti isolado, distante. Não do Rio Grande do Sul, que estava mesmo muito longe dali, mas distante de Copacabana, do Rio de Janeiro, do centro do país. Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil. Eu era a comprovação de algo do qual não me julgara, até então, um exemplo: o sentimento de não ser ou não querer ser brasileiro tantas vezes manifesto pelos rio-grandenses, seja em situações triviais do cotidiano, seja na organização de movimentos separatistas.

A sério ou de brincadeira, sempre se falou muito no Rio Grande do Sul em sermos um “país à parte” (nossa bandeira atual é a mesma de quando os revolucionários farroupilhas separaram o estado do resto do país. Vale no entanto dizer que, apesar da imagem que ficou para a história, os farroupilhas não eram separatistas no início de seu movimento). Por ter sempre acreditado que entre falar e sentir havia uma distância enorme, a realidade do meu sentimento era agora perturbadora. Significava que eu não precisava sair à rua pregando o separatismo: eu já estava, de fato, separado do Brasil.

Naquela época, passagem dos anos 80 para os 90, esse tema do “país à parte” estava mais uma vez em voga, e não se poderia encontrar em outra região do país, como ainda hoje não se pode, um povo mais ocupado em questionar a própria identidade que o riograndense. Com isso, o gauchismo e os movimentos separatistas estavam em alta, estes últimos a reboque dos freqüentes protestos de políticos contra o governo federal pela precária situação econômica do estado, manifestações que, muitas vezes, traziam à tona a retórica dos revolucionários do século XIX.

Abro parêntese para comentar o que chamei de gauchismo.

É difícil que as regiões se conheçam bem em um país tão grande como o Brasil. Acabam sempre lançando mão de estereótipos e fixando uma imagem imprecisa umas das outras. A mídia nacional, situada no centro geográfico, enfrenta a mesma dificuldade e, ao tentar dar conta da diversidade, adota os estereótipos regionais, o que termina por reforçá-los. Neste processo, distorções muitas vezes se estabelecem como definições de cores locais.

A palavra gaúcho é, hoje em dia, um gentílico que designa os habitantes do Rio Grande do Sul, e o estereótipo do gaúcho é um dos mais difundidos nacionalmente, se não o mais difundido: misto de homem do campo e herói, que o escritor brasileiro Euclides da Cunha, em seu clássico Os Sertões, definiu como essa existência-quase-romanesca. Popularmente, é visto como valente, machista, bravateiro; um tipo que está sempre vestido a caráter e às voltas com o cavalo, o churrasco e o chimarrão.

Originalmente, gaúcho é o rio-grandense do interior, que trabalha a cavalo em fazendas de criação de gado, o mesmo personagem que, no passado, participou das guerras e revoluções em que o estado se envolveu. É um tipo comum aos vizinhos Uruguai e Argentina, com a diferença de que nesses países gaucho (gaúcho) é simplesmente o homem do campo, nunca um gentílico que designe os habitantes dos centros urbanos. É significativo que, no variado leque de tipos regionais brasileiros, esse mesmo gaúcho tenha se estabelecido como marca de representação de todos os rio-grandenses, justamente ele, que nos vincula aos países vizinhos, que nos “estrangeiriza”.

Já o gauchismo ou tradicionalismo é um amplo movimento organizado que, transitando entre a realidade da vida campeira e seu estereótipo, procura difundir em toda parte o que considera a cultura do gaúcho. O empenho de grupos tradicionalistas em legitimar esse personagem e seu mundo como nossa verdadeira identidade, e a vinculação histórica do gaúcho aos heróis da Guerra dos Farrapos contribuem de forma decisiva para que o estereótipo seja largamente assumido pelos rio-grandenses como imagem de representação. No estado e no país quase já não se fala em rio-grandense, mas em gaúcho.

À parte sua real significação, o gaúcho é um símbolo que, em especial nos momentos em que a auto-afirmação se faz necessária, está sempre à mão, assim como o sentimento separatista.

Falando em identidade e separação, fecho parêntese e volto a Copacabana.

Um carnaval acontecer e ser noticiado com tanta naturalidade em pleno junho me levou a pensar nas regiões do “calor” brasileiro, sua gente e seus costumes, e a conectá-las com o cotidiano do Rio de Janeiro. O espírito da festa podia não repercutir em mim, mas certamente repercutia na maior parte da minha vizinhança carioca e Brasil acima. Apesar de toda a diversidade, eu via no Brasil tropical (generalizo assim para me referir ao Brasil excetuando sua porção subtropical, a Região Sul) linguagens, gostos e comportamentos comuns como sua face mais visível. Sua arte, sua expressão popular trazia sempre como pano de fundo o apelo irresistível da rua, onde o múltiplo, o variado, a mistura que a rua evoca ganhavam forma, sendo a música e o ritmo invariavelmente um convite à festa, à dança e à alegria de uma gente expansiva e agregadora. Havia, de fato, uma estética que se adequava perfeitamente ao clichê do Brasil tropical. E se não se poderia afirmar que ela unificava os brasileiros, uma coisa era certa: nós, do extremo sul, éramos os que menos contribuíam para que ela fosse o que era. O que correspondia tão bem à idéia corrente de brasilidade, falava de nós, mas dizia muito pouco, nunca o fundamental a nosso respeito. Ficava claro porque nos sentíamos os mais diferentes em um país feito de diferenças.

Se minha identidade, de repente, era uma incerteza, por outro lado, ao presenciar as imagens do frio serem transmitidas como algo verdadeiramente estranho àquele contexto tropical (atenção: o telejornal era transmitido para todo o país) uma obviedade se impunha como certeza significativa: o frio é um grande diferencial entre nós e os “brasileiros”. E o tamanho da diferença que ele representa vai além do fato de que em nenhum lugar do Brasil sente-se tanto frio como no Sul. Por ser emblema de um clima de estações bem definidas – e de nossas próprias, íntimas estações; por determinar nossa cultura, nossos hábitos, ou movimentar nossa economia; por estar identificado com a nossa paisagem; por ambientar tanto o gaúcho existência-quase-romanesca, como também o rio-grandense e tudo o que não lhe é estranho; por isso tudo é que o frio, independente de não ser exclusivamente nosso, nos distingue das outras regiões do Brasil. O frio, fenômeno natural sempre presente na pauta da mídia nacional e, ao mesmo tempo, metáfora capaz de falar de nós de forma abrangente e definidora, simboliza o Rio Grande do Sul e é simbolizado por ele.

Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente? O escritor argentino Jorge Luís Borges, que está enterrado aqui em Genebra, escreveu: a arte deve ser como um espelho que nos revela a própria face. Apesar de nossas contrapartidas frias, ainda não fôramos capazes de engendrar uma estética do frio que revelasse a nossa própria face.

http://www.vitorramil.com.br/estetica.htm#

 

Foto: divulgação



 Escrito por Leandro às 10h30
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Avental todo sujo de ovo

 

Uma das peças mais interessantes que assisti no ano passado vai voltar a ser encenada em Salvador. Recebi a mensagem abaixo e repasso e depois vou escrever sobre a peça. Assistam.

 

 

Caros amigos,

estamos voltando a cartaz no Espaço Xisto Bahia, desta vez com o objetivo de angariar fundos para levarmos o espetáculo ao Festival de Curitiba.

Também com esse objetivo, lançamos a campanha "Amigos e Amigas do Avental", convocando os amigos a nos apoiar divulgando a temporada, as vendas antecipadas dos ingressos e dos aventais, bem como adquirí-los.

Estamos também com o livro de ouro, que será colocado na entrada do teatro para que as pessoas possam assiná-lo.

Cada pessoa que adquirir ingresso, avental ou assinar o livro, entrará na lista amiga e serão agradecidos após o espetáculo, no dia que assistir a
peça.

Estamos com um blog, onde colocamos todas as informações sobre nossa ida ao Festival.

www.aventaltodosujodeovo.blogspot.com/

*TEMPORADA - Salvador*

*Local: Espaço Xisto Bahia (ao lado da Biblioteca dos Barris)*
*Dias: 08 a 10, 15 a 17 e 23 e 24 de fevereiro*
*Horário: 20h*
*Ingressos: R$14,00 (inteira) e R$7,00 (meia)*

*Vendas antecipadas: R$7,00*
*Aventais: R$10,00*

Aguardamos contato e apoio de todos,

um grande abraço,

Christiane Veigga
(Grupo de Teatro Bastidores)
(71) 9984-3381
(71) 9912-7393

 

Foto: divulgação



 Escrito por Leandro às 11h05
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Reflexões sobre o trânsito

Pensei que algumas pessoas (das cerca de 20 que circularam por aqui) iriam achar absurda a relação que fiz entre as reflexões de Risério, sobre o movimento negro, com o movimento gay. Talvez alguns tenham pensado e não tiveram saco para comentar. Eu, em geral, não tenho saco para deixar comentários em textos na internet. Uma primeira questão poderia ser esta: tudo bem que é difícil dividir a sociedade brasileira entre negros e brancos (pois somos um país miscigenado), mas o mesmo ocorre em relação às orientações sexuais? Seríamos sincréticos na sexualidade também? O que isso quer dizer? Que todos são bissexuais?

 

Não. Não estou defendendo que todos são bissexuais, embora eu acredite que, cada vez mais existam pessoas que, pelo menos em algum momento da vida, estejam experimentando sexo ou troca de carícias e afetos com pessoas do mesmo sexo (falo aqui também da emergência de uma homoafetividade, lembrando o texto do Denílson Lopes, 2002). E é claro que existem limites entre a relação das reflexões do Risério com o movimento gay e as questões relativas à sexualidade. A minha suspeita é que, no Brasil, em particular na Bahia, as pessoas, ainda que muitas delas sejam homofóbicas, transitam mais entre as fronteiras do heterossexual e do homossexual. E isso, ainda que não acabe com a homofobia (é preciso destacar), cria um clima de maior tolerância.

 

E onde eu vejo este trânsito entre as fronteiras? Esta relação eu ainda preciso fazer e aprimorar. Além da questão dos guetos e da grande quantidade de simpatizantes de que tratei no post anterior, acho que a teoria da performatividade pode ajudar muito nessas reflexões. Diga-se de passagem que o termo “reflexões” deve ser relativizado, pois o que estou fazendo é pensar alto aqui neste blog. Aliás, é para isso que ele foi criado.

 

Uma das coisas que eu mais gosto na teoria queer é a teoria da performatividade de Butler (outro dia trato sobre o que não gosto na teoria). “O gênero é performativo porque é resultante de um regime que regula as diferenças de gênero. Neste regime os gêneros se dividem e se hierarquizam de forma coercitiva” (Butler, 2002, p. 64). De uma forma resumida e incompleta, podemos dizer que a teoria da performatividade tenta entender como a repetição das normas, muitas vezes feita de forma ritualizada, cria sujeitos que são o resultado destas repetições. Quem ousa se comportar fora destas normas sofre sérias conseqüências. Em função destas pressões, a heteronormatividade  - “enquadramento de todas as relações – mesmo as supostamente inaceitáveis entre pessoas do mesmo sexo – em um binarismo de gênero que organiza suas práticas, atos e desejos a partir do modelo do casal heterossexual reprodutivo” (Pino, 2007, p. 160), acaba sempre por prevalecer.

           

Butler analisa a performance da drag queen para demonstrar como ela destrói a idéia de um original e da ligação naturalizada entre sexo e gênero. “A atuação ou performance da drag queen é o lugar que Butler utiliza como exemplo de espaço de onde se registra uma exposição dos mecanismos de produção da identidade de gênero (...) A performance da drag queen constrói um espaço em que se rompe com a cadeia casual estabelecida pela matriz de inteligibilidade heterossexual entre sexo e gênero” (García, 2007, p. 53).

 

A partir do estudo da performance da drag queen, Butler vai pensar como o gênero,  de um indivíduo de qualquer sexo, também está baseado em uma performatividade cuja matriz é heterossexual. “O sujeito é chamado a identificar-se com uma determinada identidade sexual e de gênero sobre a base de uma ilusão de que essa identidade responde a uma interioridade que esteve ali antes do ato de interpelação. O qual é precisamente um dos aspectos fundamentais da concepção performativa do gênero” (García, 2007, p. 56).

 

Pois bem, e como pensar a performatividade de gênero dos brasileiros? Não tenho dúvidas de que a nossa matriz seja heterossexual também, mas acredito que aquilo que Butler vê na performance da drag queen - o rompimento da relação entre sexo e gênero, ou seja, não se sabe qual é e o que é original ali, pois a drag transita entre os gêneros -  também podemos ver na performance dos homens brasileiros. Algumas perguntas, sem ordem de importância, que podem servir (ou não) nessa reflexão:  

 

Como explicar que, nas danças de artistas e do povo (falo aqui especialmente do que observo na Bahia), não há a menor diferença entre o modo de dançar de homens e mulheres? Aliás, nos grupos de pagode, agora o grande lance é ter no palco dançarinos e não mais as loiras oxigenadas rebolativas. É claro que performances de artistas que fazem questão de transitar entre os gêneros não se constituem em uma novidade. Em termos locais, talvez poderíamos pensar desde Caetano e Gil (na década de 60), passando por Luiz Caldas, Jacaré, do É o Tchan (especialmente nos primeiros anos, depois, creio, por passar a ser visto como gay, ele começou a dançar de forma mais contida) e Xandy (antes de virar evangélico). Tudo isso vai desembocar nas performances vistas nos shows de pagode, com o ápice (pelo menos por enquanto) sendo o dançarino (a)  Leocrete, do grupo Saiddy Bamba.

 

E como explicar a tamanha fixação dos homens baianos em fazer e pintar as unhas, pintar os cabelos e (o que mais me surpreende) fazer as sobrancelhas (muitos, muitos mesmo, as deixam mais finas do que as mulheres)?

 

Ora, todas as coisas que eu aponto aqui, sem muita organização, sempre foram coisas associadas com a chamada “viadagem”. E, hoje, estão plenamente integradas no universo heterossexual, pelo menos na Bahia. Vou continuar tratando disso em outras mensagens mas, para finalizar, gostaria de escrever sobre esse “pelo menos na Bahia”. Acho que existem diferenças entre os estados brasileiros em relação ao que eu estou tratando aqui. Aliás, o Risério faz pouco caso dessas diferenças no seu livro (tenho outras críticas à obra, se der, escrevo em outro post). Um exemplo: ele diz que não existe bilingüismo no Brasil. Isso não é verdade. A cidade onde eu nasci, no interior do Rio Grande do Sul, é, ainda hoje (menos do que era, sim, mas ainda é) bilíngüe, assim como dezenas de outras cidades ao sul do Brasil. Risério, muitas vezes, lê a realidade baiana como se ela fosse a realidade brasileira.

 

Até mais.

 

As referências:

 

BUTLER, Judith. Críticamente subversiva. In: JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Sexualidades transgresoras. Una antología de estudios queer. Barcelona: Icária editorial, 2002, p. 55 a 81.

GARCÍA, David Córdoba. Teoria queer: reflexiones sobre sexo, sexualidad e identidad. Hacia uma politización de la sexualidad. In: CÓRDOBA, David, SÁEZ, Javier e VIDARTE, Paco. Teoria queer. Políticas bolleras, maricas, trans, mestizas. Madrid. Editorial Egales, 2ª edición, 2007, p. 21 a 66.

 

LOPES, Denílson. O homem que amava rapazes e outros ensaios. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

 

PINO, Nádia Perez. A teoria queer e os intersex: experiências invisíveis de corpos des-feitos. Cadernos Pagu (28), janeiro-junho de 2007, p 149 a 174.

 



 Escrito por Leandro às 11h06
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Teoria queer brasileira??

Eu tinha prometido fazer a relação do livro do Risério e o movimento gay no Brasil. Por acaso, precisei escrever um pequeno artigo para o jornal laboratório dos alunos da UFRB e eis algumas das reflexões no texto abaixo. Vai ter mais, podem ter certeza. Não estou rejeitando a teoria queer, como pode parecer num primeiro olhar. Diversas pessoas, nos debates em seminários e congressos, já tinham me alertado sobre como é complicado aderir aos modelos teóricos estrangeiros para analisar a realidade brasileira. Eu sempre disse que a teoria queer oferece contribuições importantes, o que não quer dizer que dá conta de tudo. Seguimos... quem sabe à uma teoria queer brasileira???

 

 

Preconceitos e paradoxos

 

Leandro Colling*

 

Nas últimas edições do jornal Reverso, um tema mereceu destaque: o preconceito racial e religioso. Nesta edição, os alunos voltam a tratar do assunto na reportagem sobre o samba de roda que, por ser ligado ao Candomblé, não é aceito pelos seguidores de algumas religiões evangélicas. O novo livro de Antonio Risério, A utopia brasileira e os movimentos negros (São Paulo: Editora 34), nos ajuda a entender o tema e também suscita questionamentos sobre as políticas não só dos movimentos negros, mas das demais organizações existentes no Brasil.

 

O antropólogo, entre outras questões, critica os movimentos negros brasileiros por terem importado dos Estados Unidos o modelo dicotômico do branco versus negro. Para Risério, esse modelo no Brasil é inviável porque a maioria dos brasileiros não se classifica como tal. As distinções aqui não seriam de raça, mas pelos vários matizes da cor da pele. Risério desenvolve uma série de argumentos para defender também que o racismo nos Estados Unidos é e foi mais cruel do que o brasileiro, tido por muitos como mascarado e, portanto, mais perverso por ser dissimulado e negado. Exemplos: não tivemos aqui um racismo de Estado, nem organizações como a Ku Klux Klan. Além disso, nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, os negros não conseguiram reter algo das suas culturas de origem, a exemplo do Candomblé. A propósito, Risério diagnostica que hoje o Candomblé,  “ao tempo em que é considerado e celebrado nacionalmente (...), acha-se também em grave crise, perdendo, em meio às camadas mais pobres da população, o que conquista em círculos remediados e ricos. Está encurralado no canto do ringue, sob uma saraivada de jabs evangélicos (ou neopenteconstais)” ( p.185).

 

O antropólogo também tenta responder porque o movimento negro não consegue a adesão de um grande contingente de pessoas. “Uma linha de resposta (...) é que a alienação, a opressão, a falta de cultura democrática e o racismo internalizado ainda conspiram contra a formação de uma consciência negra. Embora esses elementos não possam ser descartados, parece-nos mais simples reconhecer a especificidade da cultura brasileira, que acabou criando uma dinâmica de tolerância, sincretismo e absorção da diferença, sem eliminar o preconceito na prática” (p.36). Ou seja,  Risério não se filia ao discurso de que o Brasil vive em uma “democracia racial”.

 

Risério faz, em suma, um diagnóstico e um elogio ao fato do brasileiro ser mestiço, híbrido, tolerante, sincrético, misturado. Mas por que, então, ainda somos tão preconceituosos? A resposta: “Mestiçagem não significa abolição da diferença, contradições, conflitos, confrontos, antagonismos. Mestiçagem não implica fim do racismo, da violência, da crueldade. E a melhor prova disso é o Brasil. Um país (...) onde o candomblé foi perseguido, (...) onde vigoram preconceitos contra pessoas mestiças de pigmentação relativamente mais escura, onde diferenças somáticas têm implicações sociais, condenando indivíduos a situações de humilhação e pobreza; onde muitos negromestiços ainda vivem em estado de semi-escravidão econômica” (p. 65-66).

 

Paro agora de citar Risério para pensar se as suas reflexões não seriam interessantes para pensar a política de outros movimentos sociais e políticos, a exemplo dos gays, por exemplo. Muitos deles também são claramente inspirados no movimento gay dominante americano, que difundiu, por exemplo, a estratégia de revelar a homossexualidade de pessoas conhecidas. O movimento gay, em geral, também trabalha com a distinção entre pessoas heterossexuais e homossexuais. Os heterossexuais (ou a heteronormatividade, segundo a política e teoria queer) são inimigos e os bissexuais, em geral, também são mal vistos porque, segundo os ativistas mais ferrenhos, eles não têm coragem de assumir a sua homossexualidade.

 

Ou seja, assim como aqui fica impossível dividir a sociedade brasileira entre negros e brancos, o mesmo raciocínio não vale também em relação às orientações sexuais? Talvez sim. A invenção brasileira da sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) é apenas um indício. Outro é o pequeno número, em relação aos Estados Unidos, de bares, boates e lugares específicos para gays e lésbicas e suas preferências específicas (exemplo: bares para ursos, amantes do couro, drag kings etc). No Brasil, e na Bahia em particular, nunca vingou a proposta de abrir locais com este grau de especificidade. Pelo contrário, os ambientes  mais freqüentados por gays e lésbicas são freqüentados também por heterossexuais, simpatizantes ou não. E os gays freqüentam vários lugares e, até certo ponto (sempre tênue e perigoso), deixam clara a sua orientação sexual sem serem incomodados pelos heterossexuais. Se o leitor quiser um bom exemplo, vá a um show de pagode em Salvador. Esse trânsito entre as fronteiras de gênero certamente também é uma das razões de termos em São Paulo a maior parada gay do mundo.

 

No entanto, assim como destaca Risério em relação ao racismo, isso não significa que a homofobia não exista. E ela, por aqui, ainda mata. De 1980 a 2005, por exemplo, o Grupo Gay da Bahia computou o assassinato de pelo menos 2.511 homossexuais no Brasil. Eis dois paradoxos brasileiros.

 

* Professor adjunto do curso de Jornalismo da UFRB



 Escrito por Leandro às 22h20
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