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Só para registrar
A Tarde de hoje: “Frustração do público não foi por falta de aviso”
Correio: duas notinhas registram as vaias
Globo on line de ontem: "Tribalistas são vaiados após cantarem apenas duas músicas”
Nem precisa dizem mais nada.
Por fim: quem continua faturando com o fim da falecida MM é o Cortejo Afro. Ontem, no ensaio, balançou o chão da praça. Aliás, no ensaio, vi novamente o homem da roupa estilizada. Mas não o observei. Tinha tanta coisa mais interessante pra olhar. Lá sim, uma grande mistura.
Escrito
por
Leandro
às
11h06
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“Aqui não é lugar de branco”

No sábado, fomos no ensaio do Ilê Aye. Fazia muito tempo que eu não ia. Nossas visitas queriam ir e topei a parada. No domingo, fomos no Museu du Ritmo ver o show de Carlinhos Brow, com participação de Marisa Monte e Arnaldo Antunes (os três cantaram apenas duas músicas e foram vaiados no final, informação que, provavelmente, nenhum jornalista da Bahia vai escrever). Mas eu não quero falar sobre os shows. O do Ilê estava vazio, talvez em função de, no sábado passado, ter ocorrido a noite da beleza negra, maior evento do bloco antes do Carnaval. No Ilê, a maioria do público era composta por turistas gringos. O do Brow estava lotado. Eu quero falar sobre o comportamento de algumas pessoas que estavam nos dois locais e de como esse comportamento, creio, tem a ver com o discurso do movimento negro que o Ilê adota. Um componente do grupo deixou isso explícito no palco, em função daquela denúncia de uma policial que matou um trabalhador negro pensando que ele era seqüestrador. Aliás, parece uma denúncia muito justa.
Mas chega de delongas: eu quero contar sobre o comportamento de dois negros que estavam tanto no show do Ilê quanto no de Brow. Um deles estava usando a mesma roupa nos dois locais. Não estou dizendo isso como deboche. É que a roupa chamava muito a atenção das pessoas e era inspirada nos cantores de rap. O outro negro estava acompanhado de um gringo branco. Pelo meu olho, são namorados. Pois bem. O negro da roupa estilizada, no Ilê, só conversava e dançava com negros e negras, apesar da maioria do público ser de gringos mais branquelas que eu. O mesmo rapaz, no Museu, estava a toda hora cantando meninas brancas, exatamente o que ele não fez no Ilê, pelo menos enquanto eu o observava.
E o provável casal inter-racial? No Ilê, não conversavam, quase não dançavam. E no Museu? Estavam soltinhos, soltinhos, risos e risos e alguns carinhos.
Alguém pode achar que esses comportamentos não significam nada. Eu não acho. Eu concordo que a minha observação foi feita sem muito cuidado e nenhum método. Mas eu não estou pesquisando o assunto. Nem sabia que eu escreveria sobre isso. Só tive essa idéia porque tudo ficou muito explícito nos meus olhos. E o que esses comportamentos distintos significam? Para mim, a força de um discurso segregacionista, divisor e que, como diz Risério, odeia a mistura.
Amanhã talvez eu escreva mais sobre isso. Vou apenas encerrar com uma frase que uma mulher negra me disse, aos berros, em um Carnaval passado, na famosa saída do Ilê, em plena ladeira do Curuzu. “Aqui não é lugar de branco”.
PS: antes de ser mal entendido, destaco: minhas críticas não desconsideram o papel importante desempenhado pelos movimentos negro e gay.
Escrito
por
Leandro
às
15h37
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Dom João VI era, no máximo, bissexual

Nesta semana completam-se 200 anos da vinda de D. João VI ao Brasil. Ele chegou no dia 22 de janeiro e desembarcou no dia 23 em Salvador (li na Folha que, na próxima terça, haverá uma encenação do desembarque no Mercado Modelo, organizada pela Fundação Pedro Calmon). Aproveitando a data, soube hoje, através do site do Marccelus, que Luiz Mott inaugurou uma exposição no GGB que “tira do armário seis ilustres personagens da história pátria: quatro gays e duas lésbicas”. Entre eles, o próprio D. João VI, que foi casado com Carlota Joaquina, com quem teve NOVE filhos (segundo o texto, cinco são atribuídos a relações extraconjugais).
Assim que li o texto, fiz associação direta com as questões que escrevi em mensagens abaixo. A exposição do Mott, que na festa do Bonfim não conseguiu sequer gente suficiente para segurar a bandeira do arco-íris durante o cortejo, é a prova atual do uso de uma velha política do movimento gay brasileiro, claramente influenciado pela primeira fase do movimento gay americano: a velha estratégia de tirar “celebridades” do armário.
A estratégia nasce da idéia de mostrar à sociedade que pessoas influentes, reconhecidas e importantes também são ou foram gays ou lésbicas. Eles acreditam que, com isso, estejam combatendo a homofobia. O problema é que há uma grande distância entre a intenção e o efeito da estratégia sobre as pessoas. Ao invés de colaborar com os gays, a estratégia joga contra eles. E isso por várias razões. Vou aqui apontar apenas uma. A inconsistência das informações. Como pode ser chamado de gay um homem que casou e teve nove filhos? Ou que teve quatro (caso proceda a informação de que cinco foram de relações extraconjugais)? O texto diz que na época os homens gays eram obrigados a casar. Tudo bem, mas o pau do D. João VI levantou e ele comeu a Carlota! Logo, no máximo, ele poderia ser bissexual e não gay.
Mott, inteligente como é, sabe disso, mas acredita piamente na idéia de que revelar a bissexualidade não é tão forte politicamente. Além disso, é aquilo que eu já disse: os bissexuais são seres mal vistos pelos ativistas gays. São aqueles que não tiveram coragem ou condições, neste caso, de serem gays. Ora, isso nem sempre é verdadeiro. Por que alguém não pode estar neste trânsito entre os gêneros e ora andar na direita e ora na esquerda? Não aceitar essa possibilidade é não aceitar a mistura e isso tem a ver com o movimento gay americano também. Risério diz o mesmo sobre as questões raciais: “os estadunidenses não querem saber de mistura, de intercurso cordial entre raças” (p.281).
A bissexualidade de D. João VI pode ser uma boa chave para entender a formação da sexualidade do brasileiro. Risério explica muito bem como a nossa cultura pode ser explicada através do sincretismo (ele desce o pau nos autores do multiculturalismo). Suas reflexões me fizeram pensar em como esse sincretismo também pode ter se manifestado na mistura no terreno da sexualidade. Talvez aí consigamos entender porque o brasileiro convive com a diversidade sexual.
Mais Risério, para fechar o post de hoje: “quando falo de sociedade urbana convivial, não estou me referindo a uma sociedade harmônica, sossegada, entregue à sua própria placidez. Não me refiro sequer a um espaço social onde os conflitos se apresentassem de forma atenuada. Em outras circunstâncias, estes esclarecimentos seriam dispensáveis, mas o ambiente brasileiro não se encontra hoje, mentalmente, em condições normais de temperatura e pressão. Parece até que as pessoas estão fazendo questão de parecer burras. Daí o didatismo e a redundância a que somos obrigados. Convívio não é sinônimo de harmonia, mansidão ou paz. Convívio é coabitação. É o coexistir no interior de um mesmo universo físico-social. É o contato, familiaridade, relação. É o trato permeável, a vizinhança invasiva, a proximidade que enseja influências mútuas e multidirecionais. É o avesso da distância, do isolamento, da soledade. O contrário do apartamento. Convívio é comunicação. É a abolição do “exótico”, no sentido etimológico do vocábulo: o que está fora do campo de visão. Mas, como disse, não implica tranqüilidade, entendimento, comunhão. A convivência pode ser agitada, exasperante, litigiosa e mesmo violenta até entre marido e mulher” (p.245-6).
Escrito
por
Leandro
às
15h54
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