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Será que publicam?

De quem é o preconceito?

 

Leandro Colling

 

O artigo Preconceito às avessas, de Ives Gandra da Silva Martins, publicado nesta página no último dia 8 de abril, revela o quanto o autor e, certamente, boa parcela da sociedade temem pelo menor sinal de questionamento da sua cultura, valores e normas que foram historicamente construídos por um discurso pseudocientífico e, especialmente, por algumas religiões. Por não querer entender ou aceitar normas diferentes das quais está habituado, o autor também não compreende porque determinados setores da sociedade, como os gays e os afrodescendentes, decidiram elaborar estratégias para chamar a atenção, subverter a ordem e atacar séculos de homofobia e racismo.

 

Se um grupo de homossexuais, em plena Semana Santa, realiza uma celebração com cálices recheados de preservativos, provavelmente, nada mais fazem do que reagir às ações de um dos papas mais homofóbicos da história recente da Igreja Católica. Em outro contexto, os grupos de afrodescendentes (ou negromestiços, como prefere Antônio Risério), ao saírem às ruas com camisetas “Eu sou negro” também reagiram contra as manifestações racistas visíveis em nossa sociedade. Essas duas reações Gandra qualifica de “preconceito às avessas”. Eu chamaria a reação de Gandra de tentativa de manutenção das normas que ele segue e que ele desejaria que todos seguissem.

 

Ora, um cidadão branco e heterossexual não precisa usar camisetas com dizeres: “eu sou branco” ou “eu sou heterossexual”. A sociedade discrimina brancos e heterossexuais? Casos isolados ocorrem, até em função das estratégias políticas de determinados grupos gays ou negros, mas a pergunta é: não é possível entender essas reações?

 

Uma clara amostra de como Gandra escreve simplesmente para defender suas normas está no trecho em que ele diz: “se um cidadão sair declarando, na comunidade, que é ‘heterossexual’ e orgulhar-se de utilizar esse impulso natural de forma a assegurar a continuidade do gênero humano poderá ser rotulado de preconceituoso”. O que faz Gandra nesse trecho? Nada mais do que uma defesa da chamada heteronormatividade compulsória, o enquadramento de todas as relações a partir do modelo de um casal heterossexual reprodutivo.

 

Há anos heteronormatividade compulsória vem sendo criticada e problematizada por vários intelectuais. Um dos principais esforços é destruir a idéia (ou seja, os chamados pré-conceitos) de que a heterossexualidade é um “impulso natural”. Ela é, assim como a homossexualidade, uma construção social. Outro pré-conceito de Gandra está refletido da idéia de que somos todos iguais. Não somos. Somos diferentes, felizmente. O espaço acabou e resta dizer que esses são bons temas para um próximo artigo.

 

Professor adjunto da UFRB e pesquisador do CULT, da Facom/UFBA, onde coordena o grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade.  



 Escrito por Leandro às 10h58
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