A volta
Sim, faz uma eternidade que eu não escrevo aqui. Ainda assim, alguns gatos pingados insistem em passear pelo blog. Agradeço. O motivo do meu desaparecimento é um só: absoluta falta de tempo. Pensei que, depois de ser professor de uma federal, eu teria mais tempo para escrever. Ledo engano. Tenho trabalhado como nunca. Muitas coisas legais e muitas, muitas, coisas chatas.
O que me fez resolver escrever aqui, mesmo tendo toneladas de textos dos meus alunos para corrigir, é a tal “palestra” da pós-pós feminista Camille Paglia. Ela esteve no TCA na última quarta. Eu não sabia que ela viria, em alguns dias sequer estou tendo tempo de ler jornal, mas ganhei um ingresso e fui ver “a mulher que as feministas amam odiar”. Quem acompanha esse blog sabe que eu não gosto nem um pouco de Camille. Ela não passa de uma machista, um macho que come (literalmente) outras mulheres e usa a biologia para problematizar o gênero. (Não é por nada que convidaram uma especialista em genética para apresentar Camille). Faz isso para criar polêmica de jornal, vender livros e ficar rica. O meu amigo dos cadernos grampeados (http://cadernosgrampeados.zip.net) acha que Camille “desconstrói as tolices proferidas por feministas”. Estou longe de achar que as críticas ao pensamento de Camille sejam tolices. Também não culparia o público do TCA, que não teria capacidade de entender a mensagem de Camille, como defende o autor do blog http://drmukti.blogspot.com, citado nos cadernos.
Eu fui à "palestra" aberto a ser convencido de pelo menos alguns dos seus argumentos. Eu e muitos outros saímos decepcionados do TCA. Ela deve achar que os brasileiros são mesmo uns imbecis para acreditar que ela é uma grande intelectual depois de uma noite como aquela no TCA. Ela apenas apresentou 61 imagens e fazia comentários brevíssimos sobre cada uma. Alguns dos comentários consistiam apenas em descrições das obras. E ponto final, nada mais. Quando ela começava a analisar as obras a partir das suas concepções machistas e biológicas, logo encerrava as “reflexões” e partia para a próxima imagem.
O pior de tudo é ver, no Correio da Bahia, uma repórter escrever que ela “mostrou todo o seu poder de fogo” na dita “palestra”. Palestra está entre aspas porque aquilo não passou de uma aulinha para estudantes do primeiro semestre de um cursinho fuleiro de história da arte. E nada mais. A tal repórter disse que Camille mostrou todo o seu poder de fogo porque, já no final, alertada sobre o pouco tempo que ainda restava para finalizar a sua fala, ela começou a falar rapidamente e deixou o tradutor quase louco. Ora, esse é um motivo para dizer que uma palestrante “mostrou todo o seu poder de fogo”? É por isso que eu digo: nada melhor do que estar nos locais e depois conferir como os jornalistas cobrem os eventos. Nesses momentos, mais uma vez, fica provado que o jornalismo está falido.
Só para finalizar: eu já assisti, na Ufba, palestras com pensadores muito mais importantes e interessantes que não receberam páginas e páginas dos jornais. E nem falo do Enecult, que aconteceu também nessa semana. Mas, em relação a aulinha da Camille, Renato Ortiz e Massimo Canevacci, na reitoria da Ufba, fizeram verdadeiras palestras nas manhãs desta semana que termina.
Escrito
por
Leandro
às
18h03
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