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Lendo Butler IV

No sexto e último ponto do livro Problemas de gênero, chamado Linguagem, poder e estratégias de deslocamento, Butler retoma uma discussão que já estava presente nas páginas anteriores, mas aqui ela a torna mais explícita. Ela trata sobre como diversos autores, ao tratarem sobre gênero, partem do pressuposto de que “existe alguém atrás da obra”, ou seja, de que alguém comanda ou é responsável pela construção do gênero. Como Butler argumenta que o gênero é o resultado de uma construção performativa, ela se coloca contra alguns desses autores, a exemplo, novamente, de Wittig.

 

Aos poucos, Butler começa a apresentar o pensamento de Lacan, autor central do próximo capítulo. Lacan assume grande importância na obra de Butler, entre outras coisas, pela valorização da linguagem. Um exemplo: “Em Lacan (...) o sujeito masculino é uma construção fictícia, produzida pela lei que proíbe o incesto e impõe um deslocamento infinito do desejo heterossexualizante. O feminino nunca é uma marca do sujeito; o feminino não pode ser o ‘atributo’ de um gênero. Ao invés disso, o feminino é a significação da falta, significada pelo Simbólico, um conjunto de regras lingüísticas diferenciais que efetivamente cria a diferença” (Butler, 2003, p. 52). Vejam que essa posição é a mesma que Butler teve anteriormente na discussão sobre a metafísica da substância em relação ao gênero. Não quero dizer aqui em Butler apenas concorda com Lacan. No segundo capítulo, ela também critica a obra dele.

 

Outra questão interessante desse último ponto do primeiro capítulo trata sobre como a heterossexualidade compulsória age sobre os homossexuais. Nas minhas análises sobre a representação dos homossexuais nas telenovelas, eu trato um pouco sobre isso. Falo sobre como alguns casais de gays e lésbicas estão inscritos dentro da heteronormatividade. No entanto, Butler vai muito além dessa minha constatação. Ela diz que o fato de gays e lésbicas assumirem convenções dos heterossexuais (delimitando, por exemplo, quem desempenha o papel masculino e feminino na relação) não pode ser compreendidos como “a insistência perniciosa de construtos heterossexistas na sexualidade e na identidade gays. A repetição de construtos heterossexuais nas culturas sexuais gay e hetero bem pode representar o lugar inevitável da desnaturalização e mobilização das categorias de gênero. A replicação de construtos heterossexuais em estruturas não heterossexuais salienta o status cabalmente construído do assim chamado heterossexual original. Assim, o gay é para o hetero não o que uma cópia é para o original, mas, em vez disso, o que uma cópia é para uma cópia. A repetição imitativa do ‘original’, discutida nas partes finais do capítulo 3 deste livro, revela que o original nada mais é do que uma paródia da idéia do natural e do original” (Butler, 2003, p. 56 e 57).

 

Fiz questão dessa longa citação porque ela é importantíssima para melhorar as minhas análises sobre a representação dos gays e lésbicas nas telenovelas. Butler chama a atenção de que, ao dizer que o casal gay está inscrito dentro de um modelo heteronormativo, isso não pode significar que esse modelo heterossexual seja considerado um modelo original. Ele é também uma cópia, pois todos estão inscritos dentro de uma operação performativa, tanto hetero quanto homossexuais. Essa última parte, pelo menos, sempre esteve presente nas minhas reflexões sobre a tal teoria da performatividade.

 

No entanto, quando eu tratei sobre como os personagens gays estão inscritos dentro de um modelo heteronormativo, eu não apenas estava me referindo aos papéis sexuais (masculino ou feminino, passivo e ativo, macho e fêmea da relação). Eu estava também me referindo ao desejo de casar, ter filhos e ao apagamento de qualquer sinal que relacione o homossexual com o universo gay, por exemplo, a afetação, a estética camp etc. No entanto, ainda vale a reflexão de Butler porque não é possível imaginar que casar, ter filhos e se comportar como um heterossexual seja algo original e/ou natural. Senão vejamos um outro trecho do texto de Butler, onde ela diz qual é o seu propósito no livro: “(...) a presente investigação busca compreender a produção discursiva da plausibilidade dessa relação binária (de gênero), e sugerir que certas configurações culturais do gênero assumem o lugar do ‘real’ e consolidam e incrementam sua hegemonia por meio de uma autonaturalização apta e bem-sucedida” (Butler, 2003, p.58).

 

Para concluir, fico pensando em como os heterossexuais devem receber essas reflexões. A maioria deles (e também dos homossexuais) acredita piamente que casar e ter filhos é natural, é o destino biológico do ser humano. Na próxima mensagem, enfrento o segundo capítulo. Para mim, é o mais complexo, pois lida com Lacan e Freud. Vamos ver o que acontece.



 Escrito por Leandro às 15h53
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Lendo Butler III

Como eu disse na mensagem anterior, Butler demonstra que os autores possuem reflexões diferenciadas sobre o sexo, enquanto categoria. E por que ocorrem essas diferenças? Butler vai procurar as respostas através da chamada metafísica da substância, tema sobre o qual a filosofia historicamente se debruça. Para os propósitos da discussão de gênero, a questão  está entre entender o gênero como uma substância, um atributo ou não da pessoa, ou pensar que ele não é um atributo, mas uma relação entre os sujeitos. Butler adere mais à segunda opção. “Como fenômeno inconstante e contextual, o gênero não denota um ser substantivo, mas um ponto relativo de convergência entre conjuntos específicos de relações, cultural e historicamente convergentes” (Butler, 2003, p. 29).

 

Butler não vai tratar apenas sobre a metafísica da substância no gênero, mas também no sexo (é verdade que ela fará isso com mais ênfase em Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”, mas aqui isso já está vislumbrado). Tradicionalmente, lembra ela, o sexo é considerado um atributo da pessoa. Butler não vai aceitar isso de uma maneira tão fácil, o que faz ela se distanciar, e muito, de qualquer discurso da biologia. (Por isso, Camile Paglia e Butler estão em campos bem opostos. Talvez por isso, uma sequer cite a outra. Camile retoma um discurso biológico ao louvar o prazer que a mulher tem em ser mãe, ao direito que ela tem em sentir e desfrutar desse prazer. Não é por nada que, na abertura da sua palestra no TCA, no projeto Fronteiras do Pensamento - ver mensagem abaixo no blog -, escolheram uma médica geneticista para apresentar Camile ao público baiano).

 

Mas, voltando à metafísica e à categoria de sexo, Butler vai defender que ser de um sexo ou de um gênero é impossível. Ou seja, você está com um sexo ou gênero, e ele é o resultado de uma relação social, e não um atributo essencial seu. Eu, é claro, não li todos os demais estudos sobre essas discussões, mas aqui Butler parece apresentar mais um divisor de águas importante. Mas ela não está completamente sozinha, pois cita Irigaray e Foucault. A primeira, segundo Butler, diz que o discurso que entende o gênero como uma substância da pessoa supõe que os homens e mulheres têm atributos masculinos ou femininos e “é um exemplo do sistema binário a mascarar de fato o discurso unívoco e hegemônico do masculino, o falocentrismo, selecionando o feminino como lugar de uma multiplicidade subversiva” (Butler, 2003, p. 41).

 

Para Foucault, diz Butler, o discurso que entende o sexo como uma substância impõe uma relação binária e artificial entre os sexos. E ele, como bem destaca Butler, vai sustentar que a sociedade, por regular a sexualidade através de um esquema binário, “suprime a multiplicidade subversiva de uma sexualidade que rompe as hegemonias heterossexual, reprodutiva e médico-jurídica” (Butler, 2003, p. 41).

 

Foucault, autor central para Butler, e que aqui ainda não tinha aparecido, não sei bem porquê, é muito utilizado por Butler especialmente por ele demonstrar, ao longo dos três volumes de A história da sexualidade, o quanto as normas da sexualidade foram construídas ao longo dos séculos. Já a materialista Wittig, em seu manifesto lésbico contra o pensamento heterossexual que impera no mundo, vai complementar e dizer que esta restrição binária atende unicamente aos objetivos reprodutivos da heterossexualidade compulsória.

 

Logo em seguida, Butler faz uma primeira grande crítica à Wittig, que apresenta, no seu livro, a lésbica como um “terceiro gênero” capaz de subverter todas as categorias, normas, noções e, é claro, a heterossexualidade compulsória. Ela diz, inclusive, que as lésbicas não são mulheres (Wittig, 2006, p. 57). Iremos voltar mais tarde a falar de Wittig. Aqui, vale destacar que Butler diz que essa lésbica de Wittig adere e confirma, ao invés de contestar, a metafísica da substância.

 

Em resumo, Butler quer, com essa grande discussão, chegar ao “seu” conceito de gênero e conclui o referido ponto dizendo: “(...) o gênero não é um substantivo, mas tampouco é um conjunto de atributos flutuantes, pois vimos que seu efeito substantivo é performativamente produzido e imposto pelas práticas reguladoras da coerência de gênero. Conseqüentemente, o gênero mostra ser performativo no interior do discurso herdado da metafísica da substância – isto é, constituinte da identidade que supostamente é. Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra” (Butler, 2003, p. 48). Só para lembrar que, para Butler, Simone de Beauvoir acreditava que há um sujeito prévio a toda escolha de gênero possível.

 

E assim segue Butler, firme na sua tentativa de comprovar a hipótese de que o grande operador dos problemas de gênero é a heterossexualidade compulsória e agora, nesse ponto do livro, lança as luzes para aquilo que, posteriormente, veio a ser chamada de teoria da performatividade de gênero. Mas não pense que isso vai estar escrito assim, dessa forma, no livro dela. Butler foge daqueles textos acadêmicos mais tradicionais. Ela vai e volta em várias questões e vários autores, muitos dos quais ela presume que o leitor já conhece. Esse talvez seja o grande problema que os leitores iniciantes enfrentam ao ler o livro. Mas, apesar disso, com um pouco de atenção e algumas leituras paralelas, é possível pelo menos entender as questões gerais da obra. Espero estar ajudando. Amanhã prometo encerrar o primeiro capítulo. Já nem vou falar mais da falta de comentários.



 Escrito por Leandro às 16h21
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Lendo Butler II

Continuando a minha saga.

 

Butler segue o seu propósito de ser uma feminista que critica o feminismo sem deixar de reconhecer as lutas histórias das feministas. Apenas um trecho para ilustrar o que estou dizendo: “A crítica feminista tem que explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculinista, mas também deve permanecer autocrítica em relação aos gestos totalizantes do feminismo” (Butler, 2003, p. 33).

 

Além de criticar as concepções estritas (relativo às categorias, identidades e sujeitos), Butler continua a desconstruir os binarismos e as estratégias políticas de coalização adotadas por boa parte do movimento feminista (e aqui poderíamos incluir os gays e negros). A seguir, vai questionar até que ponto esta necessidade de unidade do movimento não produz a identidade como um ideal normativo. Isso me parece muito interessante porque, em geral, quando pensamos em identidades, pensamos (ou pelo menos  deveríamos) sempre no plural.

 

Quer dizer, se a identidade vira um ideal normativo, o que fazer com aquelas pessoas que não se conformam com as normas de gênero mais compreendidas e aceitas pela sociedade e pelo próprio movimento feminista (gay e negro)? E quais são esses gêneros “inteligíveis”, ou seja, aqueles reconhecidos e aceitos? Butler responde: “(...) aqueles que, em certo sentido, instituem e mantém relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo” (Butler, 2003, p. 38).

 

E o mais interessante vem logo a seguir, pois Butler explica que os próprios sujeitos com gêneros considerados “incoerentes e descontínuos” são, eles próprios, concebíveis em relação às normas consideradas coerentes e contínuas. Esses seres que, em outros textos, ela chama de abjetos, são produzidos e proibidos pelas “próprias leis (penso que aqui ela também quer incluir as normas) que buscam estabelecer linhas casuais ou expressivas de ligação entre sexo biológico, o gênero culturalmente constituído e a ‘expressão’ ou ‘efeito’ de ambos na manifestação do desejo sexual por meio da prática sexual” (Butler, 2003, p. 38).

 

O que tem de novo aqui é a questão do desejo no raciocínio de Butler. Ou seja, as normas exigem uma linha contínua entre sexo e gênero (como já tínhamos visto) e, além disso, também uma linha contínua para o desejo e a prática sexual. Butler quer saber é o que opera toda essa equação. A hipótese central dela é que o grande operador é a heterossexualidade compulsória, que sustenta uma relação binária para o sexo. Mas em seguida ela faz uma  pergunta e aí, para variar, deixa o leitor novamente meio confuso. “Tal explicação não nos faria retornar a mais uma estrutura totalizante em que a heterossexualidade compulsória tomaria meramente o lugar do falocentrismo como causa monolítica da opressão de gênero?” (Butler, 2003, p. 39).

 

Ou seja, quando achamos que conseguiremos simplificar o raciocínio de Butler, quando pensamos que vamos enfim encontrar uma resposta (ou um inimigo para atacar), ela vem com essa pergunta???

 

A partir daí, começa um outro desfile de autores que Butler aciona para defender que não existe apenas um responsável pela produção dos conceitos de identidade sexual. O próprio conceito de sexo gera controvérsias. Irigaray defende que existe apenas um sexo, o masculino, Foucault “pressume que a categoria do sexo, tanto masculino como feminino, é produto de uma economia reguladora difusa de sexualidade”. Em seguida, Butler cita Wittig, que depois vai merecer um ponto específico do livro, e que aqui no blog também deve ser tratada com destaque. Monique Wittig é uma feminista “radical” praticamente desconhecida no Brasil. Um bom livro para conhecer o pensamento de Wittig é El pensamiento heterosexual y otros ensayos (Editora Egales, Madrid, 2006).

 

Para Wittig, “a categoria do sexo é, sob as condições de heterossexualidade compulsória, sempre feminina (mantendo-se o masculino não marcado e, conseqüentemente do universal. (...) Os vários modelos explicativos oferecidos aqui sugerem os caminhos muito diferentes pelos quais a categoria do sexo é compreendida, dependendo de como se articula o campo de poder” (Butler, 2003, p. 40). Bem alentador, não é?

 

Amanhã eu continuo e tento problematizar um pouco mais os conceitos, para não ficar apenas na abstração. Ela (a abstração) também me incomoda, mas é necessária.

 

Para finalizar: incrível como eu não consigo avançar nas páginas desse livro. Das duas uma: ou Butler oferece muito em poucas páginas ou eu quem sou incapaz de compreender o todo de cada ponto do livro. O que vocês acham? Tem alguém aí?



 Escrito por Leandro às 16h01
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Lendo Butler I

Continuo a minha sistematização das idéias de Butler, mesmo sem nenhum comentário da meia dúzia de pessoas que passaram pelo blog.

 

Butler continua sua obra, ainda na tentativa de desconstruir a tese de um sujeito estável do feminismo, entrando na clássica discussão sobre sexo/natureza versus gênero/cultura. Aqui ela retoma velhas discussões das feministas e destaca, como muitas outras já fizeram, que o sexo não determina o gênero. Ocorre que ela usa isso exatamente para questionar a tal “unidade fixa do sujeito”. Se concordamos que o gênero é o resultado de uma construção cultural, não podemos concordar que esse processo ocorra apenas de uma ou de outra maneira, mas das mais variadas maneiras. E mais: se sequer temos dois tipos de sexo (basta verificar a existência dos hermafroditas, mais recentemente chamados de intersexos – a mudança é resultado de uma tentativa de retirar a carga patológica que o termo hermafrodita carrega), por que insistimos que existem apenas dois tipos de gênero?

 

Defender que existem apenas dois gêneros, demonstra Butler, é, no fundo, acreditar que existe uma relação mimética entre sexo e gênero, algo que, desde os primórdios, as feministas desejam desconstruir. Ou seja, fica aqui patente aquilo que Butler disse em páginas anteriores. Muitas vezes, no desejo de emancipação, usamos os mesmos esquemas explicativos de quem nos aprisiona.

 

Ok, mas e o que significa dizer que o gênero é uma construção? Essa é uma outra grande discussão presente em vários estudos feministas. Trata-se da velha discussão sobre essencialismo versus construcionismo, presente não só nos estudos feministas, mas também nas demais discussões sobre identidade, como as de “raça”/etnia (ver, por exemplo, os vários estudos de Hall e um bom texto introdutório de Woodward, 2007).

 

Continuando: e Butler adere ao construcionismo? Sim pode ser uma resposta apressada. Vejamos o que ela diz: “Em algumas explicações, a idéia de que o gênero é construído sugere um certo determinismo de significados de gênero, inscritos em corpos anatomicamente diferenciados, sendo esses corpos compreendidos como recipientes passivos de uma lei cultural inexorável” (Butler, 2003, p. 26). O Butler quer dizer com isso? Ela desenvolve essa discussão em Problemas de gênero e a retoma em Bodies that matter, ainda não traduzido para o português, mas como uma versão em espanhol, com título Cuerpos que importan. O capítulo introdutório foi publicado em O corpo educado, organizado por Guacira Lopes Louro (ver Butler, 2001). Para entender melhor esse texto de Butler, leia a entrevista concedida por ela e publicada na Revista Estudos Feministas (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2002000100009&lng=en&nrm=iso).

 

Butler, ao falar dos corpos passivos como recipientes de uma lei cultural, problematiza que a natureza (a matéria, o corpo) não é passiva, mas que ela reage e também interfere sobre a cultura. Ou seja, ela não trabalha com a idéia de que o corpo (a matéria ou a natureza) determina a o gênero (a cultura) e nem com a idéia de que a cultura (o gênero) determina o corpo (a matéria/natureza). O que ocorre é uma constante troca e é impossível de determinar exatamente como ela ocorre.

 

Nesse momento, Butler começa a problematizar a conhecida frase de Simone de Beauvoir que, no livro O segundo sexo, diz que “a gente não nasce mulher, torna-se mulher”. Ainda que Butler reconheça os grandes méritos do trabalho intelectual da companheira de Sartre, ela não concorda com a afirmação por, pelo menos, duas razões: uma delas é que a frase pressupõe que existe um agente que se apropria desse gênero, e esse agente, então, poderia assumir um outro gênero, qualquer gênero. Se isso é verdade, então o gênero seria simplesmente uma escolha? (Aqui cabe um parêntese. Essa discussão aparece, em outros termos, nos estudos gays e lésbicos, sobre se a homossexualidade é uma orientação sexual ou uma escolha).

 

Outra questão que Butler levanta para problematizar a frase de Beauvoir é de que ela passa a idéia de que, antes do corpo tornar-se mulher, esse corpo ainda não significava nada em termos de gênero. Ou seja, esse corpo puro, sem marcas de gênero, para Butler, não existe. A partir do momento em que identificamos que o bebê, ainda no feto da mãe, tem um pênis ou uma vagina, aquele corpo já passa a ter um gênero. Depois, mais adiante, ela defende que, a partir desse momento, além de definir o gênero do feto, também já passamos a impor a ele uma sexualidade, ou melhor, a heterossexualidade.

 

Mas se isso é verdade, então temos aqui um novo problema: como conceber o corpo? Assim, tudo não vira gênero? Que discurso adotar sobre o corpo e sobre o gênero? Butler, aí, coloca em contraposição os pensamentos de Beauvoir e Luce Irigaray. A primeira defende que “os homens são portadores de uma pessoalidade universal que transcende o corpo”, ou seja, o gênero é o feminino pois a pessoa universal e o gênero masculino são uma coisa só. As mulheres seriam o negativo dos homens, o Outro ou a falta.

 

Para Irigaray, por sua vez, “o sexo feminino constitui aquilo que não se pode restringir nem designar”. Irigaray argumenta que a idéia de Beauvoir trabalha com uma categoria falocêntrica, que ela (Irigaray) deseja combater. Butler pende para Irigaray quando diz que Beauvoir subestima o falocentrismo. “Para Irigaray, esse modo falocêntrico de significar o sexo feminino reproduz perpetuamente as fantasias de seu próprio desejo auto-engrandecedor. Ao invés de um gesto lingüístico autolimitativo que garanta a alteridade ou a diferença das mulheres, o falocentrismo oferece um nome para eclipsar o feminino e tomar o seu lugar” (Butler, 2003, p. 26).

 

Depois, no segundo capítulo de Problemas de gênero, Butler vai voltar a discutir a questão do falocentrismo, retomando um texto de Lacan. Por hoje é só.   

 

As novas referências são:

 

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, Guacira Lopes (org.) O corpo educado – pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, p. 151 a 172.

 

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, Vozes, 2007.



 Escrito por Leandro às 16h30
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Lendo Butler

Em 2003, no ano do seu lançamento no Brasil, comprei o livro Problemas de gênero, de Judith Butler. Eu tinha terminado a minha dissertação e pensava muito em mudar de área, ou seja, abandonar o tema mídia e eleições e migrar para os estudos culturais, especialmente os gays e lésbicos. Comecei a ler o livro e tive muitas dificuldades de entender os argumentos de Butler. Deixei o livro de lado para ler outras coisas parecidas, na esperança de no futuro entender melhor o pensamento dela. O tempo foi passando, acabei fazendo doutorado na mesma área do mestrado (às vezes me arrependo amargamente dessa escolha) e, paralelamente, fui me aproximando dos estudos gays e da teoria queer, da qual Butler é uma das precursoras. Li outros livros dela, mais recentes, e o Problemas de gênero permanecia na estante, meio intocado. Nas últimas semanas, achei que era o momento de enfrentar a obra que tornou Butler conhecida no mundo. Passei a mesma tarefa para os integrantes do grupo Cultura e Sexualidade (CUS), que eu coordeno no CULT-UFBA. Para organizar o meu raciocínio e dividir com mais pessoas o que tenho feito nos últimos tempos, resolvi começar a postar alguns comentários/fichamentos do livro aqui no blog. Adoraria receber comentários.

 

Butler começa seu livro questionando a tese de que as mulheres sejam o sujeito do feminismo. Se filia, logo de cara, mesmo sem citar, com os autores que questionam as categorias estáveis e permanentes para argumentar que, quando o feminismo adota determinada categoria como seu sujeito, não percebe que essa mesma categoria é “produzida e reprimida pelas mesmas estruturas de poder por intermédio das quais busca-se a emancipação” (Butler, 2003, p.19).

 

O que isso, afinal, quer dizer? Em termos identitários, significa pensar que as identidades não são fixas, mas que ela são “descentradas”, “deslocadas ou fragmentadas” (Hall, 2002, p. 8). E como traduzir isso em política identitária? Admitir que as categorias são tão descentradas e fragmentadas não inviabiliza qualquer estratégia política? Butler passa a pensar a respeito e é enfática ao dizer que “fazer apelos à categoria mulheres, em nome de propósitos ‘estratégicos’, não resolve nada” (Butler, 2003, p. 22). Por que? Basicamente, porque esses propósitos restringem uma política de representação das mulheres, pois deixam de fora boa parte delas. Quando age assim, o próprio feminismo “abre guarda a acusações de deturpação cabal da representação” (Butler, 2003, p.22).

 

Mas e qual é a saída? Butler seria mais uma das autoras que criticam e desconstroem categorias e não colocam nada no lugar? Não, ela está longe disso e logo passa a apresentar as suas propostas, ainda que elas não sejam de fácil execução. Uma das tarefas seria a “crítica às categorias de identidades que as estruturas jurídicas contemporâneas engendram, naturalizam e imobilizam” (Butler, 2003, p. 22).  Outra tarefa é a de repensar radicalmente as construções ontológicas de identidade. E, em seguida, Butler lança a sua grande pergunta ao feminismo: “Em que medida a categoria das mulheres só alcança estabilidade e coerência no contexto da matriz heterossexual?” (Butler, 2003, p. 23). Penso que reside aí uma das grandes contribuições do livro de Butler para a história do feminismo. Ela vai, de várias formas, atacar e evidenciar o quanto essa categoria histórica das mulheres do feminismo é baseada em uma matriz heterossexual, da qual as lésbicas, por exemplo, estão excluídas.

 

O que essas reflexões podem nos ajudar para pensar a nossa realidade? Em primeiro lugar, logo lembro da tentativa do presidente do GGB, Luiz Mott, de nomear a conferência GLBT da Bahia de Conferência Gay. O que essa tentativa revela? Revela que, em nome de “propósitos estratégicos”, Mott adota uma categoria estrita para os sujeitos homossexuais e, assim, tenta excluir uma série de outros sujeitos. Seria interessante pensar o quanto essa categoria de gay que Mott tanto defende também é influenciada pela matriz heteronormativa adaptada a certa matriz homonormativa e masculina (talvez até misógina) que ele tenta, a todo custo, construir.  

 

Por enquanto, as referências são:

 

BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A Editora, 2002.



 Escrito por Leandro às 11h13
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Pílula V

Eu sempre achei que Glória Menezes era péssima atriz. Tive que reavaliar minha análise depois de ver a peça Ensina-me a viver. De péssima passou para boa atriz.

 

Nos próximos dias, terei um tempinho para escrever mais. Não sei se vou ter vontade. Os assuntos: um livro de Djuna Barnes (apontada por Monique Wittig como o Marcel Proust de saias) que li nas últimas semanas, as minhas novas reflexões sobre a obra de Judith Butler (finalmente estou encarando alguns livros comprados há anos/meses).



 Escrito por Leandro às 11h19
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