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Algumas respostas aos comentários

Pessoas lindas. Vou responder alguns dos comentários postados no blog sobre o texto da Leo Kret. Sugiro que vocês também leiam os comentários postados pelos leitores do texto no site da revista Muito, do A Tarde (http://www.atarde.com.br/muito/bastidores/index.jsf?post=979305). Lá estão visíveis os preconceitos da classe média em relação aos pobres, negros e viados, em especial aos viados. Alguns parecem exercer a crítica consciente mas, no fundo, são profundamente preconceituosos. Os comentários dos meus amigos, aqui do meu blog, felizmente não seguem essa linha. Meus amigos discordam e, na verdade, solicitam mais argumentos. Vou aproveitar as mensagens deles para continuar pensando sobre o fenômeno, sempre alertando que esses textos são quase pensamentos em voz alta. Por isso, disse na primeira mensagem que é necessário ter mais tempo e espaço para refletir sobre a eleição de Leo Kret.

 

O meu texto tinha apenas duas singelas pretensões:

 

1º) criticar a imprensa e as pessoas que insistem em chamar Leo Kret de vereador. Essa é uma manifestação clara de um preconceito, pois insiste em exigir uma linha coerente entre sexo e gênero, quando sabemos que o sexo não determina, necessariamente, o gênero;

 

2º) pensar em outras respostas para a sua eleição, para além do voto de protesto e de esculhambação. Eu não descarto essa alternativa, apenas aponto outras alternativas possíveis que, ao meu ver, não são absurdas. Até quando vamos insistir em oferecer apenas uma reposta para as questões?

 

Dito isso, vamos aos comentários e às minhas respostas.

 

Meu querido Marcão, com o qual já discuti pessoalmente algumas questões parecidas, levanta questões muito interessantes. Diz ela que a vereadora eleita não apresentou “nenhum histórico de envolvimento em causas de sua comunidade e do grupo que diz representar” e, por isso, “não há por que enxergar, portanto, uma “outra forma de fazer política”, no sentido de ser uma política nova.”

 

Qual é o problema aqui: eu não falei em “política nova” no meu texto, mas que as paradas impulsionam uma outra forma de política. Eu sou professor de teorias do jornalismo e da comunicação, me preocupo muito com as palavras que uso, ou pelo menos tento me preocupar. Mas, ainda assim, se eu quero falar em “política nova” ou outra política, eu também preciso repensar o que é, afinal, “histórico de envolvimento”. Eu não posso usar os mecanismos de análise da “política tradicional” para analisar essa outra forma de política. Ou seja, se política é ou deveria ser a disputa pelo melhor argumento, coisa que a política nunca foi, eu jamais vou conseguir entender outras formas de se fazer política. Era na contraposição com essa clássica maneira de fazer política que eu estava tratando.

 

Por exemplo: para um gay, ir à parada pela primeira vez, pode ser um ato político importante, pois ele vai manifestar, com a sua ida, que existe, que faz parte de um grande grupo com características semelhantes a ele, etc etc etc. Hoje, com as paradas mais sedimentadas, esse sentido político pode ter se perdido, mas, em algum grau, ele ainda existe. Eu me sinto fazendo política ao ir à parada, sem discursar, sem convencer ninguém, mas me juntando aos demais para celebrar a diversidade. E essa dimensão dessa outra política estava presente na campanha de Leo Kret, e não estava na de Marcelo Cerqueira. Essa é a questão que eu desejava levantar no meu texto.

 

Outra questão que o Marcos coloca é se não estaríamos desconsiderando os “conflitos de poder e de classe subjacentes a ela (à Parada) e que estão na sua base. Daí a sua inocuidade, pois folcloriza-se, cooptada festiva e tacitamente pela estrutura arcaica que busca enfrentar. Tal fagocitose detém-se na tolerância dionisíaca aos costumes, e vai perdendo a oportunidade de explorar seu potencial verdadeiramente revolucionário, de respeito à diversidade sexual; perde a oportunidade de associar-se a processos que conduzam a uma liberdade e conquistas”.

 

Eu talvez não tenha entendido direito a mensagem, mas a parada evidencia os conflitos de poder e de classe. E a minha análise também evidencia, de outra forma, os conflitos de classe. Não tenho dúvida que a maioria das pessoas que criticam a eleição de Leo Kret sejam da classe média/alta de nossa cidade. A classe média odeia povo, não se mistura ao povo, tem medo do povo. E há aqui um componente "racial" também. Fanon já dizia que os brancos têm medo dos negros. No Carnaval, então, isso fica mais que evidenciado. Nas paradas, idem. A classe média que ainda vai para a parada segue atrás de determinados trios (da Off, por exemplo) ou em cima dos trios. Mas a parada de Salvador é uma parada da classe baixa, uma parada cheia de leokretes, putões e piriguetes. E leokretes são também revolucionárias (em outro sentido, não no sentido tradicional, de novo precisamos usar esses conceitos “sob rasura”). Por que são revolucionárias? Porque rompem com a heteronormatividade, misturam os gêneros e jogam isso na cara das pessoas.

 

A minha pergunta é: por que a performatividade de gênero de Leo Kret incomoda tanto e é colocada em primeiro plano por quem a critica, ou critica a sua eleição? Não estaria aí, no fundo, o desejo de que todos se comportassem dentro da heteronormatividade? E mais: não é apenas o gênero da Leo Kret que é performativo. Todos os gêneros são performativos, diz Butler. Aliás, essa é uma das suas idéias mais respeitadas. Ou seja, Leo Kret é tão performática quanto um heterossexual ou um homossexual sem afetações. O problema é que as pessoas consideram algumas performances normais e naturais e outras não. Mas o gênero não é natural. Essa é uma longa discussão, impossível de esgotar aqui.

 

Por fim, Marcos diz que a eleição de Leo Kret “é meramente acidental, desses acidentes eleitorais capazes de sufragar presidentes” e “ademais, travestis/transgêneros não são novidade no pleito eleitoral”. Pode até ser acidental, mas não ocorrem acidentes sem motivos. Esses motivos é que eu estou procurando entender. Sim, os travestis e transgêneros não são novidade nos pleitos. A novidade está na eleição de Salvador, com uma votação impressionante. E o mais interessante, que soube somente depois de escrever o meu texto: Leo Kret fez sua campanha praticamente sem dinheiro. Um dos poucos muros com a sua propaganda ficava no bairro onde ela mora. Sim, ela já era conhecida/midiática, mas outros candidatos igualmente bem conhecidos e até midiáticos não se elegeram.

 

João disse: “não vejo a eleição de Leo Kret como um avanço da nossa democracia, enxergo como um sinal claro do quanto a população está desacreditada com os políticos e usam o voto em personalidades do tipo como uma forma de protesto, muitas vezes inconscientemente”. Eu, em nenhum momento, disse que a eleição de Leo Kret é um avanço. Também não disse que é um retrocesso. Não tive o interesse em pensar nesse sentido. Acho que as duas coisas ocorrem ao mesmo tempo. Por um lado, é um retrocesso, por outro, um avanço. No meu texto, também está claro que não discordo que muitos tenham votado nela como sinal de protesto. Eu apenas acho que isso não explica tudo, explica parte do problema. E as centenas de leokretes (existem muitas em Salvador, é só ir nas paradas e observar) que, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de votar em quem elas acham que as representa, como ficam nessa idéia de protesto? Ali o voto é de protesto? Ali o voto não é igual ao meu, ao nosso?

 

Daniel disse: “A Câmara será mais um canal para os soteropolitanos enxergarem os gays apenas sobre esse viés: da galhofa”. Sim, mas é isso que precisamos reverter. É preciso positivar a fechação, o comportamento camp e queer. Se não fizermos isso, estaremos, no fundo, querendo acabar com a fechação, o camp e o queer. Se fizermos isso, estaremos nos filiando/inscrevendo na heteronormatividade compulsória, e homofóbica. Essas são questões muito interessantes que a chamada teoria queer levanta. Tenho críticas à teoria, mas alguns pontos são mesmo brilhantes. Por falar em brilho, viva a purpurina!

 

Por enquanto, era isso.

 

Um beijo pra tod@s.



 Escrito por Leandro às 10h27
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Nova versão

A nova vereadora da cidade

 

Leandro Colling*

 

O que significa a eleição de Leo Kret do Brasil para a Câmara de Vereadores de Salvador, com 12.861 votos, o quarto maior número entre todos os candidatos? Por que Leo Kret se elegeu e outros 69 candidatos do Brasil que se assumiram como gays, lésbicas, travestis ou transgêneros não conseguiram o mesmo? Leo Kret é travesti, transexual, transformista ou transgênero? Devemos dizer “o vereador” para se referir a Leo Kret? Essas são algumas das perguntas que ouvi depois das eleições do último domingo. Tenho algumas respostas, mas esse fenômeno é bem mais complexo e seria necessário mais espaço e tempo para escrever sobre.

 

Vou começar pela última pergunta. Leo Kret prefere ser chamada no feminino. E não se considera travesti ou transformista. Em entrevista ao site Terra Magazine, ela disse: “Mas, na realidade, nós somos transgêneros. Temos identidade feminina. E se a gente vai pegar as definições coletadas pelo coletivo de travestis transexuais, vai perceber que a definição de "travesti" é se transformar em alguns momentos. E a minha identidade feminina é diária. Eu durmo e acordo uma mulher. Ainda não operada, ainda não transgenitalizada. Mas eu acordo uma mulher. Se formos usar uma definição mais específica, eu seria uma transexual.”

 

Por essa fala, uma coisa é certa: Leo Kret deseja ser chamada de vereadora. E ela tem o direito de escolher a sua identidade. O que está confuso são os conceitos de identidade sexual que ela utiliza. O travesti, ao contrário do que diz Leo Kret, não se transforma em apenas alguns momentos. A maioria deles usa ou usou hormônios e silicone para transformar o corpo em definitivo. As transformações eventuais são as realizadas por transformistas, drag queens e drag kings. Já o termo transexual, no caso de Leo Kret, também não é o mais ideal. Em geral, o transexual é aquele que deseja ou já realizou a cirurgia de mudança de sexo. Não parece ser exatamente esse o caso de Leo Kret. Ela parece ter resolvido muito bem a sua identidade de gênero sem a necessidade de realizar cirurgia de mudança de sexo ou mesmo de aplicar silicone no peito.

 

Nesta sopa de palavras, talvez a mais apropriada, que mais se aproxime da dançarina que deseja ser prefeita e presidenta, seja a definição de transgênero. A rigor, o que Leo Kret faz é uma mistura de gêneros, mantendo o seu sexo biológico. Ela não fez grandes mudanças no seu corpo de menino, mas se veste como uma menina “cretina”. “Cretina porque a gente incorpora o personagem no palco, daquela personagem de irreverência, pra gente quebrar os tabus”, disse ela, também na entrevista ao site Terra Maganize. Mas essas, é claro, são as minhas leituras. Quem deve dizer, no final das contas, qual é a sua identidade é a própria Leo Kret. Por enquanto, tenho uma única conclusão: é um desrespeito chamarem Leo Kret de vereador.

 

E o que explica a eleição de Leo Kret? Por que outros candidatos da comunidade LGBTT, com ampla experiência nos movimentos da Bahia e do Rio Grande do Sul, como Marcelo Cerqueira (2.656 votos) e Célio Golin (1.805 votos), não se elegeram? Por que outras candidatas, também bem fechativas, para usar uma gíria da comunidade LGBTT, todas de São Paulo, como Léo Áquilla (6.515 votos), Salete Campari (2.821 votos) e Lacraia (495) não se elegeram? Muitos dizem que o voto em Leo Kret é um protesto contra a política, uma forma de esculhambação. Isso até pode ser parcialmente verdadeiro, mas é só isso? Outras razões, talvez bem menos aceitas ou pensadas, poderiam ser investigadas.

 

Não estaria no voto em Leo Kret um sinal de como as pessoas gostam dos gays e dos transgêneros fechativos que têm coragem de assumir publicamente os seus desejos? Um sinal de que muitas pessoas gostam da fechação, combinada com humor, irreverência, uma mistura de queer (no sentido de estranho, indefinido) e camp (a fechação) com kitsch muito visível em nossas paradas LGBTT, especialmente as de Salvador?

 

No início de setembro deste ano, o fundador do GGB, Luiz Mott, disse, no Congresso da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, em São Paulo, que as paradas não promoveram a eleição de candidatos comprometidos com a comunidade LGBTT. Não seria Leo Kret exatamente um fruto das paradas? Negar isso não esconde, na verdade, que tal fruto não era o que desejávamos? Considero as paradas a maior manifestação política do Brasil depois do movimento das Diretas Já. Elas impulsionam uma outra forma de fazer política, festiva, via celebração, lúdica, que rejeita os discursos tradicionais, a disputa pelo melhor argumento. A rigor, Marcelo Cerqueira, apesar de ser um dos organizadores das paradas da cidade, nunca incorporou essa dimensão da política em suas campanhas eleitorais. Não estou dizendo que ele deveria se transformar em uma Leo Kret, mas usar algo dessa outra política em suas estratégias. Na verdade, neste ano, ele fez o contrário. A campanha de Marcelo apagou, ou pelo menos minimizou, a sua relação com a festa, com a fechação e com o próprio movimento gay. As placas de Marcelo espalhadas pela cidade, por exemplo, não informavam sobre sua ação política no GGB. Ou seja, a campanha de Marcelo se rendeu às forças da heteronormatividade, tentou parecer igual aos heterossexuais para conquistar mais votos. Não deu certo. A de Leo Kret fez o contrário. Ela usa e abusa do seu corpo estranho, do seu trânsito entre os gêneros, ela quebra as noções binárias de sexo e gênero.

 

O problema, dizem alguns críticos, é que ela não tem postura, discurso e estratégia política capaz de se tornar respeitada e de combater a homofobia. Vai manter a representação caricata dos homossexuais, dizem outros. Será? E por que os gays caricatos, afeminados e fechativos não podem estar na Câmara de Vereadores? Que normas acionamos quando queremos criticar ou condenar os gays afeminados e caricatos? Concordo em parte com as preocupações, mas o mandato de Leo Kret, assim como a sua eleição, poderá surpreender muitas pessoas. Ela não é igual ao Clodovil, que disse ter vergonha de ser homossexual. O que menos Leo Kret tem é vergonha.

 

Por fim, mais uma pergunta: outros estados brasileiros, a exemplo do Rio Grande do Sul, elegeriam Leo Kret? Duvido muito. E isso diz muita coisa. Será que os soteropolitanos, ao elegerem Leo Kret, não mostram mais uma vez que lidam de uma forma diferente com a  sexualidade (a própria e a dos outros)? Essas respostas dariam argumentos mais consistentes e menos óbvios para as perguntas do início do texto.

 

* professor adjunto da UFRB e coordenador do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS), do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT), da Facom/UFBA. Professor do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade.

 



 Escrito por Leandro às 09h59
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A vereadora da cidade sou eu!

O que significa a eleição de Leo Kret do Brasil para a Câmara de Vereadores de Salvador, com a impressionante soma de 12.861 votos, o quarto lugar entre todos os candidatos? Por que Leo Kret se elegeu e outros 69 candidatos do Brasil que se assumiram como gays, lésbicas, travestis ou transgêneros não conseguiram o mesmo? Leo Kret é travesti, transexual, transformista ou transgênero? Por que a maioria dos repórteres usa sempre “o candidato” ou “o vereador” para se referir a Leo Kret? Essas são algumas das perguntas que ouvi depois das eleições do último domingo. Tenho algumas respostas, mas esse fenômeno é bem mais complexo. Preciso de muito mais espaço e tempo para escrever sobre.

 

Vou começar pela última pergunta. Leo Kret prefere ser chamada no feminino. E não se considera travesti ou transformista. Em entrevista ao site Terra Magazine, ela disse: “Mas, na realidade, nós somos transgêneros. Temos identidade feminina. E se a gente vai pegar as definições coletadas pelo coletivo de travestis transexuais, vai perceber que a definição de "travesti" é se transformar em alguns momentos. E a minha identidade feminina é diária. Eu durmo e acordo uma mulher. Ainda não operada, ainda não transgenitalizada. Mas eu acordo uma mulher. Se formos usar uma definição mais específica, eu seria uma transexual.”

 

Por essa fala, uma coisa é certa: Leo Kret deseja ser chamada de vereadora. O que está confuso são os conceitos de identidade sexual que ela utiliza. O travesti, ao contrário do que diz Leo Kret, não se transforma em apenas alguns momentos. A maioria deles usa ou usou hormônios e silicone para transformar o corpo em definitivo. As transformações eventuais são as realizadas por transformistas, drag queens e drag kings. Já o termo transexual, no caso de Leo Kret, também não é o mais ideal. Em geral, o transexual é aquele que deseja ou já realizou a cirurgia de mudança de sexo. Não parece ser exatamente esse o caso de Leo Kret. Ela parece ter resolvido muito bem a sua identidade de gênero sem a necessidade de realizar cirurgia de mudança de sexo ou mesmo de aplicar silicone no peito.

 

Nesta sopa de palavras, talvez a mais apropriada, que mais se aproxime da dançarina que deseja ser prefeita e presidenta, seja a definição de transgênero. A rigor, o que Leo Kret faz é uma mistura de gêneros. Ela não fez grandes mudanças no seu corpo de menino, mas se veste como uma menina “cretina”. “Cretina porque a gente incorpora o personagem no palco, daquela personagem de irreverência, pra gente quebrar os tabus”, disse ela, também na entrevista ao site Terra Maganize. Mas essas, é claro, são as minhas leituras. Quem deve dizer, no final das contas, qual é a sua identidade é a própria Leo Kret. Por enquanto, tenho uma única conclusão: é um desrespeito chamarem Leo Kret de vereador.

 

E o que explica a eleição de Leo Kret? Por que outros candidatos da comunidade LGBTT, com ampla experiência nos movimentos da Bahia e do Rio Grande do Sul, como Marcelo Cerqueira (2.656 votos) e Célio Golin (1.805 votos), não se elegeram? Por que outras candidatas também fechativas, todas de São Paulo, como Léo Áquilla (6.515 votos), Salete Campari (2.821 votos) e Lacraia (495) não se elegeram? Muitos dizem que o voto em Leo Kret é um protesto contra a política, uma forma de esculhambação. Isso até pode ser verdade, mas é só isso? Outras razões, talvez bem menos aceitas ou pensadas, poderiam ser investigadas. Não estaria no voto em Leo Kret um sinal de como as pessoas gostam dos gays e dos transgêneros fechativos que têm coragem de assumir publicamente os seus desejos? Um sinal de que muitas pessoas gostam da fechação, combinada com humor, irreverência, uma mistura de queer e camp com kitsch muito visível em nossas paradas aqui de Salvador?

 

Luiz Mott disse outro dia, no Congresso da Abeh, que as paradas não promoveram a eleição de candidatos comprometidos com a comunidade LGBTT. Não seria Leo Kret exatamente um fruto das paradas? Negar isso não esconde, na verdade, que tal fruto não era o que desejávamos? Considero as paradas como a maior manifestação política do Brasil depois do movimento das Diretas Já. Elas impulsionam uma outra forma de fazer política, festiva, via celebração, lúdica, que rejeita os discursos tradicionais, a disputa pelo melhor argumento. Marcelo Cerqueira, apesar de ser um dos organizadores das paradas da cidade, nunca incorporou essa dimensão da política em suas campanhas eleitorais. Não estou dizendo que ele deveria se transformar em uma Leo Kret, mas usar algo dessa outra política em suas estratégias. Na verdade, ele fez o contrário. A campanha de Marcelo apagou, ou pelo menos minimizou, a sua relação com a festa, com a fechação e com o próprio movimento gay. A campanha de Marcelo se rendeu às forças da heteronormatividade. A de Léo Kret fez o contrário. Ela usa e abusa do seu corpo estranho, do seu trânsito entre os gêneros, ela quebra as noções binárias de sexo e gênero. O problema, dizem alguns críticos, é que não tem postura, discurso e estratégia política capaz de se tornar respeitada e de combater a homofobia. Será? Eu posso até concordar em parte, mas acho que o mandato de Leo Kret poderá surpreender muitas pessoas.

 

Por fim, mais uma pergunta: outros estados brasileiros, a exemplo do Rio Grande do Sul, elegeriam Leo Kret? Duvido muito. E isso diz muita coisa. Há anos venho pensando em como os baianos, em especial os soteropolitanos, lidam com a sexualidade. Minha hipótese é de que os moradores de Salvador possuem algo que os diferencia em relação a população de outras grandes cidades brasileiras. Eu ainda não sistematizei as minhas percepções, um dia pretendo fazer isso. Acho que elas sim darão respostas mais consistentes e menos óbvias (e que também são válidas) para as perguntas do início do texto.

 

A entrevista de Leo Kret no site Terra Magazine está em http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3060231-EI6578,00-Leo+Kret+Quero+ser+presidenta+do+Brasil.html

 



 Escrito por Leandro às 16h17
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