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Somos diferentes

Vou tentar voltar a escrever no blog. Talvez mais uma promessa a não ser cumprida. Vamos ver.

Outro dia fomos ver Milk – voz da igualdade. Gostei muito do filme, em especial da atuação do Sean Penn.  Depois de ler o texto do João Moreira Salles, Assim é se não lhes parece, publicado na piauí de fevereiro último, fiquei ainda com mais vontade de escrever umas linhas. O Salles tenta entender o sucesso de Milk e de O segredo de brokeback mountain e também o sucesso de alguns atores negros de Hollywood. Basicamente, quanto aos filmes com temática gay, ele argumenta que boa parte da aceitação do público a esses dois últimos filmes (ele tb lembra de Filadélfia) se deveria ao fato dos atores serem conhecidos como heterossexuais.

Assim, o contrato do espectador (subjetivamente falando) seria mais ou menos esse: tudo bem, eu aprecio, gosto, mas sei que ele vai para cama com fulana de tal, é um heterossexual como eu. O texto de Salles é bem interessante e também destaca a narrativa convencional de Milk, o que causa ainda mais espanto quando sabemos que o diretor é Gus Van Sant.

Mas eu gostaria de destacar outras coisas. Primeiro: o título do filme. Reforça o discurso da igualdade. Estou cada vez mais convencido que o discurso que devemos reforçar é o da diferença. O próprio filme contradiz o seu título, pois o tempo todo a obra nos mostra as diferenças, ou melhor, o quanto a falta de respeito a elas gera tantos problemas.

Segundo (tem relação direta com o primeiro):  o filme pode reforçar o discurso velho e caduco de boa parte dos militantes da causa LGBT. Que diz: precisamos sair do armário, precisamos afirmar a nossa identidade, precisamos dizer que somos iguais etc etc. Esse discurso, que parece ser libertador, na verdade, é datado (mas é claro que desempenhou papel importantíssimo) e nos aprisiona. Sair do armário pode não ser a melhor saída, aliás, pode apenas transferir o armário para os outros (como diz o excelente texto da SEDGWICK, Eve Kosofsky. A epistemologia do armário. Cadernos pagu,  Campinas,  n. 28, jun. 2007, p.19-54. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/03.pdf). Além disso, a afirmação de qualquer identidade é necessária mas sempre retira parte da comunidade, exclui boa parte dela. Esse é o problema. Por que? Porque não somos iguais, somos diferentes. Ainda bem.



 Escrito por Leandro às 11h46
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