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Eu sou do feminismo lésbico negro?
As lésbicas são mulheres? A pergunta dominou as "discussões" de uma mesa-redonda realizada ontem, na Faculdade de Economia, da UFBA, por ocasião do lançamento do livro da pesquisadora Nadia Nogueira (Invenções de si em histórias de amor - Lota Bishop). A resposta para essa questão já foi dada pela Monique Wittig. Para ela, as lésbicas não são mulheres, pois fazem parte de um terceiro gênero. As lésbicas estariam fora do contrato heterossexista, da heteronormatividade, que atende aos interesses reprodutivos. É claro que estou simplificando a tese de Wittig. Alguns dos principais textos dela podem ser lidos em El pensamiento heterosexual y otros ensayos (Egales, Madrid, 2006). Para Nadia, algumas lésbicas podem ser mulheres (pois estão, de alguma forma, inscritas dentro da heteronormatividade) e outras não. É mais ou menos a mesma idéia defendida por Butler, já em Problemas de gênero, tantas vezes citada aqui e na mesa-redonda de ontem. Essa idéia parte do princípio de que devem, podem e existem tantos gêneros quanto nossa imaginação puder criar. E o fato do sujeito ser homossexual não o livra da heteronormatividade. Aliás, eu acredito que o contrário esteja acontecendo. A cada dia que passa, vejo mais e mais gays e lésbicas totalmente inseridos nos padrões heteronormativos. E as telenovelas constróem e refletem isso na telinha. Mas eu estou fazendo essa pequena introdução para dizer outra coisa. Apesar dos pesquisadores concordarem e defenderem que é necessário quebrar os binarismos, os estereótipos e as categorias fixas e fechadas, eles próprios, depois de alguns segundos, voltam a usar os binarismos, estereótipos, categorias fechadas etc etc. Apenas dois exemplos: primeiro se defende a pluralidade dos gêneros, para logo depois usar as categorias de homem e mulher, para logo depois falar de feminismo lésbico. O que é o feminismo lésbico senão uma categoria? Quem entra nela? Apenas as lésbicas, ou aquelas mulheres que escreveram sobre o assunto, ou aquelas escritoras lésbicas que assumiram que são lésbicas? E o tal de feminismo lésbico negro? Eu posso entrar nele? Aposto que não, mas provavelmente eu seja bem mais próximo dessa categoria do que as pessoas que estavam assistindo aquela mesa-redonda. Sempre lembro da minha entrevista com Hall. Ele disse, referindo-se a quem acredita que, para ser negro, é preciso ter a pele negra: "a cor da sua pele não o salvará". Outro exemplo: Mott pediu a palavra e disse estar feliz de ver tantas lésbicas reunidas em Salvador. Fez a sua clássica pergunta: quem é lésbica aqui? Poucas levantaram a mão. E ficou visível que não era um sinal de "ficar no armário", afinal, o ambiente era totalmente friendly. E ele disse: "nossa, pensei que vocês todas eram lésbicas"!
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Leandro
às
09h51
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Entre os muros da escola
Agora é mesmo oficial. Sou professor da UFBA. Deixei a UFRB, Cachoeira e curso de Jornalismo para ser professor do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades. Muitas mudanças. Não sou mais, provavelmente nunca mais serei, professor de jornalismo, de comunicação. Nesse novo curso, não temos disciplinas. Elas são chamadas pelo estranho nome de componentes curriculares. Realmente elas não são disciplinas, mas precisamos de um nome melhor. É uma das poucas vezes que falo de mim nesse blog. Mas as mudanças são muito grandes mesmo na minha vida de professor. Deixar de olhar o mundo apenas via jornalismo é uma tarefa muito interessante e com certeza vai influenciar esse olho queer. Por isso resolvi escrever sobre. Tenho certeza de que não sentirei falta do jornalismo. Por que? Ele piora a cada dia. Meus ex-alunos colaboram com isso (é claro que existem outros fatores também). Não que eu nutra uma expectativa muito diferente em relação aos meus alunos do BI, mas pelo menos respiro outros ares, ministro aulas diferentes, leio outros autores, outros assuntos, releio outros. Pensei sobre a capacidade do professor influenciar e ensinar os seus alunos depois de ver o filme Entre os muros da escola. É possível ensinar alguém? E quando esse alguém é um adolescente insuportável? E quando esse alguém é um jovem ou adulto que apenas olha o mundo com base nos paradigmas que ele já tem? Como é possível que esse ser humano aprenda algo nessas condições? Como dizia Freud, clinicar, governar e ensinar são tarefas impossíveis. Por isso, a cada dia, me contento com pequeninas mudanças, pequeninos avanços. Se não fosse assim, eu não suportaria.
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Leandro
às
14h38
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Nada e tudo mudou
Na mensagem anterior, disse que o discurso de Milk e do movimento gay dominante é datado. Mas o que mudou da década de 70 para cá? Conseguimos tantas conquistas que não precisamos mais de afirmação da identidade? Não sofremos mais preconceitos? Ouvi essas perguntas várias vezes. Quando dizemos (e aqui o plural se deve pelo fato de eu apenas estar repetindo o que outros já dizem, não há nada de original naquilo que escrevo) que não queremos afirmar a identidade, isso significa apenas que não temos como fixar a nossa identidade. Por mais que queiramos, isso é uma operação impossível. Mas podemos, e devemos, creio, afirmar em alguns momentos, mas sabendo que essa é apenas uma estratégia momentânea. Logo, o que mudou foi a forma de pensar a identidade. Quanto aos preconceitos, acho que eles diminuíram muito pouco e as conquistas, no Brasil em especial, ainda são ridículas. Mas atacar os preconceitos através do discurso da igualdade cria preconceitos contra quem não se enquadra como igual. Esse é o problema. E também contra quem vive mais intensamente o trânsito de sua identidade sexual, que sempre está em construção, não é um dado acabado, como explicam certas correntes da psicanálise (por isso, há sim ex-gay, ex-hetero, ok?). E isso não ocorre apenas no que se refere à identidade sexual. Ontem fui ver Gran Torino, novo filme de Clint Eastwood. O filme é cheio de piadas homofóbicas, mas não quero falar disso. O filme mostra claramente, e de forma muito interessante, o processo de identificação do personagem principal, como ele, já idoso, percebe com o quê ele se identifica. Também mostra os conflitos identitários em um mundo cada vez mais globalizado. E mostra o quanto ser macho é uma performance que se aprende no dia a dia (viva a bula Butler!!). Pena que o filme não consiga abandonar os velhos clichês do cinema americano. Mas isso é outra história.
Escrito
por
Leandro
às
11h21
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