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A reação dos machos

Uma das coisas que mais gosto de fazer é apresentar algumas idéias de teóricos queer para platéias de homens heterossexuais que nunca ouviram falar nada sobre gênero. E isso ocorreu na minha aula da semana passada. Enquanto os "machos" da sala se pronunciavam, discordavam, criticavam, as mulheres concordavam. Abalar a heterossexualidade dos homens é muito mais problemático do que fazer o mesmo com as mulheres. Elas não se incomodam tanto com o assunto. Isso é muito interessante. Em função disso, eu postei o texto abaixo no blog da "disciplina" que ministro na UFBA. Como o assunto tem direta relação com esse meu blog, resolvi postar aqui também.

Pessoas.

Eu estava lendo um texto da psicanalista Maria Rita Kehl e lembrei das reações dos homens da turma da segunda-feira na aula sobre identidade de gênero e sexual (do dia 13 de março). Nós falamos mais sobre homossexualidade e heterossexualidade e ela (Rita) fala mais das diferenças e semelhanças entre homens e mulheres. Eis um trecho, que também explica a reação dos "machos" da sala. Na verdade, os "machos" do mundo estão em crise de identidade. Estamos em plena era da crise da masculinidade. Os comentários em sala evidenciam exatamente isso. Quando a crise é percebida, a angústia se instala.

"No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios - e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher sente a conquista dos atributos "masculinos" como um direito seu, realização de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível se roubar a feminilidade: se a feminilidade é a máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. Já para o homem toda feminização é sentida como perda - ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem, interessa manter a mulher à distância, tentando garantir que esse a mais inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.

A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem, se deixar de ser homem" (Kehl, 1996, p.26-7)

KEHL, Maria Rita. A mínima diferença. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

Em vista de nossa discussão em sala, eu continuaria, paradiando Kehl:

"A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos heterossexuais e homossexuais são para o homem heterossexual mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem heterossexual se vê diante da pretensão de outro homem homossexual de ser também homem, ou quando um homem heterossexual percebe que também ama outros homens e assim deixa de ser aquele homem idealizado, fantasioso, naturalizado pela cultura".

Um bom final de semana chuvoso.



 Escrito por Leandro às 20h09
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