Eu também sou mulheeeerrrrrrr
Uma pessoa mandou um mail para mim e para um grupo de amigos e conhecidos e anuncia que nasceu alguém. Esse alguém é fruto do casamento do filho dessa pessoa com uma mulher. O nome desse alguém que nasceu não deixa claro qual é o seu sexo. Entre as pessoas que estavam na lista do mail figurava uma importante e conhecida feminista da Bahia. Prontamente, ela respondeu que o ser que acabou de nascer seria muito bem vindo no grupo de pesquisa da qual ela faz parte, seria uma espécie de continuadora dos trabalhos do tal grupo. Um outro membro da lista alerta a pesquisadora feminista que o tal ser que nasceu é do sexo masculino. A feminista pede desculpas e então desejou que o homem que nasceu seja um homem tal como desejam as feministas. Um outro membro da lista disparou algo do tipo: “pensei que você já tivesse evoluído e aceitasse homens no grupo de pesquisa, ou que homens possam pesquisar sobre as mulheres”. Depois disso tudo, eu mandei um convite para que todos participem da mesa-redonda que vou coordenar no Enecult, dia 29 de maio (vejam programação completa em www.enecult.ufba.br). Essa pequena história ilustra muito bem o que os teóricos queer tem discutido ao longo dos últimos anos. Apesar de toda essa discussão, as feministas baianas, pelo menos a tal autora dos mails, faz de conta que essa discussão não é importante. Eu não canso de me surpreender com isso. Como alguém que estuda gênero, e, portanto, sabe e defende que o gênero é uma construção social, cultural e histórica defende, ao mesmo tempo, que somente quem tem vagina pode integrar o grupo de pesquisa das feministas? Certa vez, numa banca de TCC, em plena faculdade católica, eu ouvi uma pesquisadora feminista dizer: "li o seu trabalho como uma mulher". Eu estava na mesma banca e disse, logo após cruzar as pernas e jogar a cabeça para o lado: “eu primeiro queria dizer que eu também li o teu trabalho como uma mulheeeerrrrr”. A platéia ficou surpresa e a mulher (a outra) ficou pálida, com um sorriso nervoso. Se ser mulher é gênero (e não um dado biológico) por que eu não posso ler um trabalho como uma mulher o lê? Por que o netinho do meu amigo não poderá integrar o grupo de pesquisadoras feministas? Não é incrível que estejamos tratando disso em pleno 2009?
Escrito
por
Leandro
às
23h11
[
]
[ envie
esta mensagem ]
|