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O cinema queer de Matheus

Nesse final de semana, assisti o novo filme do Matheus Nachtergaele, A festa da menina morta. Eu estava muito curioso para ver e não me arrependi. Mas creio que muitas pessoas não vão gostar do filme e vários não deverão concordar sobre o que vou escrever aqui.

O filme trata sobre um homem, que é chamado por Santinho (interpretado por Daniel de Oliveira), e se passa em uma comunidade ribeirinha do rio Amazonas. O tal Santinho é considerado santo na comunidade porque teria encontrado a tal menina morta e com ela se comunicaria. Ocorre que o tal santinho é bem afetado, veste algo que lembra um vestidinho, é afeminado e tem relações sexuais (e dorme na mesma cama) com o pai (vivido por Jackson Antunes). A mãe do santinho teria cometido suicídio. Não vou contar mais senão perde a graça.

O que gostaria de tratar é: esse é um filme sobre o quê? Sobre a relação incestuosa? É um filme com temática gay (nem falo em filme gay, pois considero essa expressão, para dizer o mínimo, muito problemática)?

Eu ainda estou pensando nessas questões. Logo no início do filme, já se percebe que o olho do diretor explora, inclusive sensualmente, o corpo de um dos atores (lindo, por sinal). Trata-se do personagem Tadeu. Um gay, sabendo quem é o diretor, logo fará essa associação. Por isso, eu logo pensei que o filme seria focado na questão/temática gay. E, para minha surpresa, quase fui esquecendo disso no decorrer do filme, e fui sendo envolvido por outras tantas questões muito interessantes. É aí que o filme cresce e deixa tantas coisas no ar. Algumas: Santinho é a nova mulher do pai? A mãe morreu mesmo? O pai ama Santinho ou ama a mãe em Santinho? Santinho é um farsante ou é mesmo médium? Santinho ama Tadeu? Tadeu ama Santinho? Quem é lúcido e quem é louco nesse filme?

Ora, todas essas últimas questões, junto com as primeiras, fazem o filme valer a pena. Fazem o filme ser considerado por mim como um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos. A atuação de Daniel Oliveira é impressionante, mas eu adoraria ver Matheus no lugar dele. Sim, agora vou dar rápidas respostas para minhas perguntas:

O filme, antes de ser sobre incesto ou com temática gay, é sobre a tragédia de nossas vidas, sobre o que fazemos para conseguir viver nesse mundo, sobre como as contingências nos governam, sobre como subvertemos e nos adaptamos às regras, sobre como criamos mitos para explicar o inexplicável. É um filme em que a temática gay é importante, mas ela vai perdendo terreno na medida em que a obra se desenvolve.

Eu acho que Santinho é a nova mulher do pai, a Lei não opera sobre ele, o complexo de Édipo não se realiza sobre ele. Assim, o pai ama a mãe em Santinho, mas também ama e deseja Santinho.  É a subversão das categorias e da Lei. Santinho não é nem um pouco santo, nem mesmo médium. Santinho ama o pai e ama Tadeu, que também o ama, e muito. Enfim, ninguém é “normal” nesse filme. E por isso que ele é muito bom. Eu colocaria ele numa lista de cinema queer.



 Escrito por Leandro às 22h41
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