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Homofobia pura

"Projetos mostram fragilidade da Câmara de Vereadores". Esse é o título da uma matéria publicada no jornal A Tarde de hoje. Entre os projetos, estão o apresentado pela vereadora Leocrete, que propõe a criação de um busto de Maycon Jackson no Pelourinho. Ela também deseja que o astro receba o título de cidadão soteropolitano.

A imprensa baiana, em geral, tem qualificado como ridícula a proposta de Leocrete. Pura homofobia "travestida" de olhar crítico sobre a atuaçao de nossos parlamentares.

Por que Maycon não mereceria o título e o busto? Alguns dizem que ele renegou a sua "raça" ao virar branco, e isso seria um problema, em especial para uma cidade que enaltece a sua negritude. É um argumento difícil de ser sustentado. Não vou nem entrar na discussão sobre porque virar branco é um problema e virar negro não o é.

É muito mais provável que ele mudou de cor para repudiar o pai, que o abusou, e não para negar a sua "raça". Se ele quisesse negar a "raça", teria mudado também a sua música, que ficou fiel às suas influências negras. Então, qual a razão de não-homenagear o cantor que divulgou o Pelourinho e Salvador para mundo? Até hoje chegam turistas para conhecer o cenário onde ele gravou um dos seus clipes mais famosos.



 Escrito por Leandro às 07h44
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Que Santo Foucault nos projeta

Nosso grupo de pesquisa, o CUS, atualmente está discutindo o livro San Foucault, de David Halperin.  Estamos adorando o livro. Depois de nossa última reunião, fiquei com muita vontade de escrever novamente aqui. Isso por causa de algumas idéias contidas no livro. Eis algumas delas que pretendo desenvolver aqui. Hoje, segue uma delas:

- é impossível convencer uma pessoa homofóbica. O discurso dela é incoerente e é nessa incoerência que reside a sua força. O homofóbico, quando contestado, sempre encontra rapidamente outro argumento para continuar com o seu discurso homofóbico.

Me lembrei muito disso depois de realizar uma palestra na cidade de Coité, no interior da Bahia, em julho passado. Pela primeira vez, eu fui bombardeado pelos ouvintes. Normalmente, poucas pessoas contestam o que eu digo nas palestras. Não porque as pessoas concordam com o que eu digo, mas porque ficam com receio de se posicionar em público na frente de um professor palestrante.

Em Coité foi diferente. Os discursos homofóbicos se transformavam a cada instante.

Alguns exemplos: um menino, muito educado, agradeceu a minha disposição de sair de Salvador para ir até a cidade e disse: “a família, professor, essa é sagrada, não pode acabar e ser atacada desse jeito. Minha família é tudo!”.

Eu respondi mais ou menos assim: "a família que você está defendendo mudou muito ao longo do tempo, aliás, a família foi criada a partir de uma imposição, na base de muito sofrimento.  Leia os estudos da antropologia sobre o assunto e verás. Além disso, a família mudou muito nos últimos tempos. Quem aqui não conhece casais que se separaram, ou é criado pela madrasta?"

 O silêncio se fez e o discurso homofóbico logo veio à tona de novo. “Professor, para mim, Leocrete sempre será Alessandro, é o que diz na identidade dele!”.

Eu revidei: “você se resume ao que diz a tua identidade? O papel da identidade é uma coisa, a identidade cultural pode ser outra. Vocês não permitem que Leocrete escolha a identidade que ela deseja, mas vocês tiveram a chance de dizer, no vestibular da Uneb, se se indentificavam como negros ou não, para serem beneficiados pelas cotas ou não. Uns podem, outros não?”. 

E os discursos homofóbicos prosseguiam e eu rebolava para rebater. Um aluno disse: “mas professor, o senhor não está falando de religião!”.

Eu disse: “sim, mas é claro que eu estou me opondo ao discurso religioso, que em geral é homofóbico.”

Aí vários alunos e alunas fizeram um coro assim: “aaaaaaaaaaahhhhhhhhh, tá veeeendo!!!”. Eles  passaram a colocar em suspeita a minha fala porque eu disse que a minha fala se baseava em uma perspectiva não religiosa, atéia.

Não resisti e disse: “se é isso que vocês querem, então vamos fechar a universidade e abrir aqui uma igreja com dinheiro público”.

Subi no palco (até então eu tinha decidido permanecer mais perto da platéia, no mesmo nível deles) e fiz uma performance de pastor.

Aí alguém disse: “mas o que o senhor está pregando é também uma religião”. Respirei fundo, e decidi parar.

Que Santo Foucault nos projeta.



 Escrito por Leandro às 20h46
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