Que Santo Foucault nos projeta
Nosso grupo de pesquisa, o CUS, atualmente está discutindo o livro San Foucault, de David Halperin. Estamos adorando o livro. Depois de nossa última reunião, fiquei com muita vontade de escrever novamente aqui. Isso por causa de algumas idéias contidas no livro. Eis algumas delas que pretendo desenvolver aqui. Hoje, segue uma delas: - é impossível convencer uma pessoa homofóbica. O discurso dela é incoerente e é nessa incoerência que reside a sua força. O homofóbico, quando contestado, sempre encontra rapidamente outro argumento para continuar com o seu discurso homofóbico. Me lembrei muito disso depois de realizar uma palestra na cidade de Coité, no interior da Bahia, em julho passado. Pela primeira vez, eu fui bombardeado pelos ouvintes. Normalmente, poucas pessoas contestam o que eu digo nas palestras. Não porque as pessoas concordam com o que eu digo, mas porque ficam com receio de se posicionar em público na frente de um professor palestrante. Em Coité foi diferente. Os discursos homofóbicos se transformavam a cada instante. Alguns exemplos: um menino, muito educado, agradeceu a minha disposição de sair de Salvador para ir até a cidade e disse: “a família, professor, essa é sagrada, não pode acabar e ser atacada desse jeito. Minha família é tudo!”. Eu respondi mais ou menos assim: "a família que você está defendendo mudou muito ao longo do tempo, aliás, a família foi criada a partir de uma imposição, na base de muito sofrimento. Leia os estudos da antropologia sobre o assunto e verás. Além disso, a família mudou muito nos últimos tempos. Quem aqui não conhece casais que se separaram, ou é criado pela madrasta?" O silêncio se fez e o discurso homofóbico logo veio à tona de novo. “Professor, para mim, Leocrete sempre será Alessandro, é o que diz na identidade dele!”. Eu revidei: “você se resume ao que diz a tua identidade? O papel da identidade é uma coisa, a identidade cultural pode ser outra. Vocês não permitem que Leocrete escolha a identidade que ela deseja, mas vocês tiveram a chance de dizer, no vestibular da Uneb, se se indentificavam como negros ou não, para serem beneficiados pelas cotas ou não. Uns podem, outros não?”. E os discursos homofóbicos prosseguiam e eu rebolava para rebater. Um aluno disse: “mas professor, o senhor não está falando de religião!”. Eu disse: “sim, mas é claro que eu estou me opondo ao discurso religioso, que em geral é homofóbico.” Aí vários alunos e alunas fizeram um coro assim: “aaaaaaaaaaahhhhhhhhh, tá veeeendo!!!”. Eles passaram a colocar em suspeita a minha fala porque eu disse que a minha fala se baseava em uma perspectiva não religiosa, atéia. Não resisti e disse: “se é isso que vocês querem, então vamos fechar a universidade e abrir aqui uma igreja com dinheiro público”. Subi no palco (até então eu tinha decidido permanecer mais perto da platéia, no mesmo nível deles) e fiz uma performance de pastor. Aí alguém disse: “mas o que o senhor está pregando é também uma religião”. Respirei fundo, e decidi parar. Que Santo Foucault nos projeta.
Escrito
por
Leandro
às
20h46
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